• Para tudo há limite: 7 comportamentos que não se deveria tolerar
    Por Alenne Namba

     

    Algumas pessoas normalizam alguns comportamentos de parceiros, parentes ou amigos, diminuindo a necessidade de se aprofundar na complexidade da situação ao apenas rotular tais comportamentos como “Esse é o jeito dele…”, “Isso é típico dela…”, “Mas ele foi criado assim…”.

    O costume de se agir assim, normalizando certas situações, acontece a fim de se permanecer na relação, mesmo quando suas águas são turvas e violentas demais para se navegar. Muitas vezes, não reconhecemos que, na verdade, estamos aceitando comportamentos que nunca deveriam ser tolerados. Pessoas inseguras ou carentes, cujas necessidades emocionais não foram satisfeitas na infância, toleram por mais tempo e com mais frequência. Para pessoas mais seguras, permitir comportamentos prejudiciais não é natural, não é confortável, pois não conviveram com tais distorções na maior parte de sua criação.

    Crianças ou adolescentes acostumados a serem marginalizados, ignorados, ridicularizados ou criticados em seus lares têm muito mais probabilidade de normalizar ou tolerar maus comportamentos das pessoas com quem convive. É como se acostumar com a pilha de roupas emboladas dentro do armário que, de tão frequente, você já nem vê mais. Vira algo comum e até confortável.

    Logo a seguir, vamos abordar algumas formas de comportamento que expressam controle sobre o outro. Podemos considerá-los como sinais de desequilíbrio na relação, em que um exerce um poder maior sobre o outro. A velha dinâmica entre vítima e algoz. Algumas dessas formas abaixo são mais óbvias, outras muito sutis. De todo modo, a questão é entender se você as permite em suas relações com parentes, amigos ou parceiros porque você atrai para si (foi assim que você foi criada e acaba desejando inconscientemente repetir o passado) ou se permite porque quer agradar, racionalizar, negar ou inventar justificativas para tais comportamentos. Tudo gira em torno de manipulação e poder. Todos precisamos assumir a responsabilidade pelos comportamentos que toleramos ou não em nossas vidas. E acredito que muitas dessas situações não deveriam fazer parte da vida de pessoas que se respeitam e se amam.

    #1

    Minimizar a importância de seus pensamentos e sentimentos

    Quando você diz o que sente ou o que pensa, o outro ri de você ou não se importa com nada disso, ou diz que você é ridícula, ou está deprimida, ou louca. Enfim, o outro diminui a importância do que sai de dentro de você, a fim de lhe diminuir como pessoa. Também tenta confundir seus pensamentos com argumentos difusos e manipuladores, dizendo que você é sensível demais ou emocional demais, ou acredita em qualquer coisa.

     

    #2

    Menosprezar e rotular

    Uma coisa é reclamar sobre a atitude ou falta de atitude de alguém, como por exemplo não se cumprir um combinado ou fazê-lo ficar esperando por muito tempo. Outra coisa é criticar o caráter da pessoa, menosprezando e rotulando o outro como “você nunca faz isso”, “você é sempre tão reclamona”, “você é isso… você é aquilo…”. Os rótulos sempre começam com a frase “você é”, “você nunca”, “você sempre”. Se este é um padrão de algumas pessoas que estão ao seu redor e você se sente denegrida ou diminuída, não racionalize, não permita, não justifique o comportamento tóxico do outro. “Ah, mas não foi bem isso o que ele quis dizer…”, “Ah, mas ele falou quando estava de cabeça quente…”. Ao inventar desculpas para si e para os outros, você só incentiva a perversão do outro.

     

    #3

    Gaslighting

    Escrevi sobre Gaslighting neste artigo. Vale a leitura aprofundada. Resumidamente, trata-se de um jogo de poder usado por indivíduos que percebem fragilidade no outro, ou que percebe neste outro uma porta aberta para sofrer manipulações. Utiliza-se da força de sua autoridade (como pai, mãe, professor, irmão mais velho, tio, chefe, marido, esposa, padre, pastor…) para controlar e subjugar o outro. Nega o que foi dito, manipula situações, fragiliza o emocional do outro, confunde-o, e, ao final, ainda reforça tudo isso dizendo que o outro está ficando louco ou que não entendeu nada. O objetivo é minar suas percepções, seu nível de confiança, sua insegurança, sua fragilidade.

     

    #4

    Desprezar o que você fala, sente e pensa

    Fazer piadas sobre você, ou virar os olhos para expressar o desprezo por você, por suas palavras e por suas ações. Isso nunca pode ser considerado bom numa relação e sempre visa exercer controle sobre você. Todo relacionamento saudável requer respeito mútuo. O livro A Equação do Casamento de Luiz Hanns é uma fonte riquíssima sobre o assunto. Vale a leitura.

     

    #5

    Projetar os próprios sentimentos no outro

    No livro Como se defender dos manipuladores, o autor Yves-alexandre Thalmann aponta isso como uma das estratégias favoritas do manipulador: jogar a batata quente para o outro. Ao invés de assumir a responsabilidade por suas próprias ações e emoções, ele projeta em você tentando tornar a raiva dele em raiva sua, o erro dele em erro seu, o desequilíbrio dele em desequilíbrio seu. Ele projeta em você o que está dentro dele. Isso muda o equilíbrio de poder de uma maneira sutil, porque ao invés de se aterem ao conteúdo da discussão, você se vê obrigada a ficar na defensiva, dizendo que não está com raiva, que o erro não foi seu ou que não é você que está louca.

     

    #6

    Manipular suas inseguranças

    Esta é outra estratégia de manipulação parecida com o Gaslighting. Mas é pior, pois objetiva impedi-la de expressar-se para mantê-la contida e controlada. Com esse comportamento, o manipulador se aproveita do conhecimento que tem a seu respeito (por exemplo, de que você fica com medo quando alguém grita, de que você provavelmente foge se for desafiada, ou de que um comentário maldoso sobre seu peso a deixará triste) e o usará para se assegurar de que você permanecerá obedecendo ou calada. Essa é uma das formas de comportamento mais difíceis de se observar, mas, se ao ler estas palavras você sentiu algum sinal vermelho acender dentro de você, é possível que esteja navegando nessas águas.

     

    #7

    Não permitir argumentações

    A recusa em ouvir ou mesmo discutir um problema que você mencionou é um dos comportamentos mais tóxicos de todos. Não só é frustrante como deprecia a relação. Talvez você acabe assumindo a responsabilidade da situação para si, já que o outro se recusa a conversar sobre o assunto. Mas essa é a pior decisão que você pode tomar, pois cria um hábito negativo e mantém a força dessa estratégia de manipulação.

    Todos esses comportamentos reforçam o controle de um indivíduo sobre o outro e estão no lado oposto de comportamentos voltados para uma relação saudável e de respeito mútuo.

    Às vezes é preciso buscar força num círculo de amigos verdadeiros e também em terapia para capacitar-se a ressignificar tais relações, ou, num caso extremo, até mesmo excluí-las de sua vida.

    Como já dizia Freud: Antes de diagnosticar a si mesmo com depressão ou baixa autoestima, primeiro tenha certeza de que não está cercado, de fato, por idiotas.

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  • Reflexões sobre a banalização do mal
    Por Alenne Namba Life Coaching

    Este artigo é fruto de um trabalho feito para meu curso de formação em Psicanálise. Quis compartilhar aqui, porque acredito ser uma reflexão importante para os dias de hoje. Refletir sobre a violência e suas origens faz-nos refletir também sobre nossos comportamentos diários, sobre a forma como nos relacionamos e como aceitamos o que recebemos dos outros. Leia e me dê sua opinião.

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    Toda barbárie é produto da liberdade humana. Como bem disse Hannah Arendt, filósofa política alemã de origem judaica, uma das mais influentes do século XX e que se dedicou a estudar o Holocausto, “o homem privou o outro de seu próprio ser”. Chegamos ao que o homem é capaz de fazer com outro homem.

    Aqueles que sobreviveram aos campos de concentração não sobreviveram de fato, porque já não eram os mesmos, porque foram transformados. O mesmo ocorre com a educação do sujeito quando criança. Ela vai perdendo (ou sendo ensinada a esconder) sua essência. O que ocorreu nos campos foram longos processos de definhamento psicológico e emocional.

    Essa “fabricação da realidade” de que os judeus eram raça inferior, que deveria ser aniquilada, foi compartilhada, vendida e recebida como fato. E isso continua ocorrendo no que diz respeito à realidade compartilhada das religiões, dos padrões de beleza e de riqueza, dos padrões de inteligência e sucesso profissional. Basta uma circunstância para que esse preconceito que está dentro do ser humano seja externalizado. Tomemos como exemplo o preconceito com mulçumanos surgido com força total após o 11 de Setembro. Por isso, que toda barbárie é produto da liberdade humana. Entretanto o que todo indivíduo tem de compreender é que, na hora da verdade, ele tem de ser capaz de pensar, de refletir por si mesmo. É preciso construir desde a infância essa capacidade.

    Essa reflexão só é possível quando nos enxergamos parte do mundo externo. É fato que todo sujeito tem intrinsecamente boa dose de agressividade. Entretanto, ela é amenizada ao longo do desenvolvimento do superego. A partir daí o indivíduo começa a compreender o conceito de bem e de mal. O superego é quem proporciona a civilidade.

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    Entretanto, nem sempre essa estrutura está pronta e algumas pessoas se permitem fazer qualquer coisa. Enquanto nos enxergamos iguais, somos solidários e condescendentes. Mas daqueles sujeitos “estranhos” a nós, acreditamos que precisamos nos defender. Na luta da espécie humana pela vida, os grupos se formam pelos iguais (no que é possível) e a agressividade inata é direcionada aos estranhos do grupo, como bem mostrado no filme O Senhor das Moscas.  Para viver em grupo, controlamos nossa agressividade inata, mas respeitamos os estranhos somente na medida em que eles nos respeitam. Por isso, “o homem é o lobo do próprio homem”.

    E o que é capaz de inibir essa agressividade voltada ao outro? São os limites, as regras sociais, as leis.

    Viver numa sociedade onde impera a impunidade é viver numa sociedade onde se incentiva a agressividade, a perversão. Embora nem toda perversão seja crime, quando ela é relacionada à crueldade podemos chamar de comportamento antissocial. O foco é mais extremo: destruição, desvio, corrupção. Este comportamento tenta impor o desejo do indivíduo ao outro, sem freios.

    Podemos enxergar esse tipo de comportamento nas ações de um bully (quem pratica o bulliyng), de um motorista de ônibus que não para para idosos, num sujeito que espanca homossexuais, numa babá que maltrata a criança, num chefe que assedia o funcionário, no sujeito que se aproveita de uma mulher carente, na mãe que abandona o filho, no pai que troca o fim de semana com o filho por um churrasco com amigos. Esses indivíduos usam o outro apenas como objeto, na ânsia de obter prazer. Não há uma consciência no intuito de relacionar-se. E nessa ânsia pelo prazer buscam controlar tudo e impor aos outros suas ilusões.

    No Brasil, especificamente, a violência em termos de quantidade e qualidade é preocupante. O brasileiro não enxerga esse outro como par para relacionar-se, apenas não se importa com ele, a não ser que obtenha alguma recompensa nessa relação. Pode-se dizer que é uma sociedade perversa.

    As razões que motivam os crimes no nosso país são fúteis. Abandono de crianças e idosos; estupro de crianças, mulheres e doentes mentais; latrocínio; violência doméstica; estelionato; furto; tráfico; corrupção. Esta lista infindável é o casamento entre a falta de limites em casa e a falta de regras sociais verdadeiramente aplicadas. A impunidade fomenta o crime.

    É fato que nem todo criminoso é perverso por natureza. Alguns obedecem a quem acreditam ter autoridade. Esta sim, a autoridade, é perversa e se utiliza da fraqueza do outro para submetê-lo. Por isso é perigoso ensinar às crianças que devem obedecer a qualquer autoridade sem questionamentos. Toda ordem tem de ter propósito, tem de fazer sentido. Mas não é o que aprendemos, tampouco é o que ensinamos a nossos filhos.

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    Uma autoridade perversa encontra um caminho fértil para submeter o outro sem questionamentos, a fim de fortalecer seu poder, formar uma legião de soldados. Isso ocorre no crime organizado, ocorre em religiões e seitas, ocorre nos órgãos públicos, nas empresas privadas, ocorre nas barbáries.

    E o que pode ser feito para compreender essa violência e minimizar seus danos? Um dos caminhos é o autoconhecimento.

    Se eu não me conheço, se nem sei o que desejo, eu permito que o outro deseje por mim. Eu permito que esse outro entre na minha vida e escolha por mim. Permito que ele diga o que tenho de fazer. E eu faço sem questionar.

    Sem o autoconhecimento o indivíduo se torna presa fácil para o egoísta. Este egoísta, que pode estar num papel de autoridade, está disposto a trabalhar conforme, e somente, por seus interesses. Então ele impõe o que eu devo desejar. Esse egoísta pode ser o filho, o marido, a segunda esposa, a mídia, os empresários, a autoridade religiosa.

    Podemos considerar também um outro caminho possível: falar a mesma língua desse agente da violência. É preciso desconstruir os referenciais negativos obtidos no seio familiar, na infância, e construir uma imagem própria positiva, a ponto de caminhar para o resgate do verdadeiro self.

    A empatia é o primeiro passo para que essa relação seja estabelecida. E o que não é a empatia, senão afastar-se de sua realidade subjetiva e tentar adentrar e compreender a realidade subjetiva do outro? Um filme que conseguiu ilustrar com maestria esse processo chama-se A Cela, em que a terapeuta literalmente entra na mente do criminoso para compreender como sua realidade se apresenta.

    Mas o que dizer quando o grande mal da sociedade contemporânea é justamente a falta de empatia?

    Fome-no-Chifre-da-África

    Ouvimos cotidianamente notícias sobre guerras e sofrimento e percebemos aquilo como algo banal, não assimilamos o significado terrível daquilo. Sempre me questionei como o resto do mundo deixou que o Holocausto acontecesse sem que tomasse partido daquele horror. Mas hoje deixamos que outros holocaustos ocorram sem que expressemos o menor sentimento. Quer exemplos? Fome na África, guerra no Oriente Médio, ditaduras ao redor do mundo, roubo de merenda escolar… Apenas continuamos a viver nossas vidas, sobrevivemos à desumanização.

    Que a violência é intrínseca ao ser humano, já compreendemos. Mas ao longo de nosso desenvolvimento é necessário que ela seja controlada, em respeito às relações com o outro. Entretanto, nossa sociedade está fundamentada em valores e práticas que retiram ou minimizam a responsabilidade do sujeito e favorecem a maneira perversa de ser e viver. Esse apelo sobre a liberdade individual a qualquer custo, sobre o egoísmo, desmorona a importância do respeito ao coletivo, ao outro, à relação com o outro, à vida em comunidade, à civilidade.

    E então, qual a sua reflexão sobre a banalização do mal. Compartilhe conosco. O verdadeiro aprendizado está justamente no compartilhamento de ideias e pensamentos.

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