• Para tudo há limite: 7 comportamentos que não se deveria tolerar
    Por Alenne Namba

     

    Algumas pessoas normalizam alguns comportamentos de parceiros, parentes ou amigos, diminuindo a necessidade de se aprofundar na complexidade da situação ao apenas rotular tais comportamentos como “Esse é o jeito dele…”, “Isso é típico dela…”, “Mas ele foi criado assim…”.

    O costume de se agir assim, normalizando certas situações, acontece a fim de se permanecer na relação, mesmo quando suas águas são turvas e violentas demais para se navegar. Muitas vezes, não reconhecemos que, na verdade, estamos aceitando comportamentos que nunca deveriam ser tolerados. Pessoas inseguras ou carentes, cujas necessidades emocionais não foram satisfeitas na infância, toleram por mais tempo e com mais frequência. Para pessoas mais seguras, permitir comportamentos prejudiciais não é natural, não é confortável, pois não conviveram com tais distorções na maior parte de sua criação.

    Crianças ou adolescentes acostumados a serem marginalizados, ignorados, ridicularizados ou criticados em seus lares têm muito mais probabilidade de normalizar ou tolerar maus comportamentos das pessoas com quem convive. É como se acostumar com a pilha de roupas emboladas dentro do armário que, de tão frequente, você já nem vê mais. Vira algo comum e até confortável.

    Logo a seguir, vamos abordar algumas formas de comportamento que expressam controle sobre o outro. Podemos considerá-los como sinais de desequilíbrio na relação, em que um exerce um poder maior sobre o outro. A velha dinâmica entre vítima e algoz. Algumas dessas formas abaixo são mais óbvias, outras muito sutis. De todo modo, a questão é entender se você as permite em suas relações com parentes, amigos ou parceiros porque você atrai para si (foi assim que você foi criada e acaba desejando inconscientemente repetir o passado) ou se permite porque quer agradar, racionalizar, negar ou inventar justificativas para tais comportamentos. Tudo gira em torno de manipulação e poder. Todos precisamos assumir a responsabilidade pelos comportamentos que toleramos ou não em nossas vidas. E acredito que muitas dessas situações não deveriam fazer parte da vida de pessoas que se respeitam e se amam.

    #1

    Minimizar a importância de seus pensamentos e sentimentos

    Quando você diz o que sente ou o que pensa, o outro ri de você ou não se importa com nada disso, ou diz que você é ridícula, ou está deprimida, ou louca. Enfim, o outro diminui a importância do que sai de dentro de você, a fim de lhe diminuir como pessoa. Também tenta confundir seus pensamentos com argumentos difusos e manipuladores, dizendo que você é sensível demais ou emocional demais, ou acredita em qualquer coisa.

     

    #2

    Menosprezar e rotular

    Uma coisa é reclamar sobre a atitude ou falta de atitude de alguém, como por exemplo não se cumprir um combinado ou fazê-lo ficar esperando por muito tempo. Outra coisa é criticar o caráter da pessoa, menosprezando e rotulando o outro como “você nunca faz isso”, “você é sempre tão reclamona”, “você é isso… você é aquilo…”. Os rótulos sempre começam com a frase “você é”, “você nunca”, “você sempre”. Se este é um padrão de algumas pessoas que estão ao seu redor e você se sente denegrida ou diminuída, não racionalize, não permita, não justifique o comportamento tóxico do outro. “Ah, mas não foi bem isso o que ele quis dizer…”, “Ah, mas ele falou quando estava de cabeça quente…”. Ao inventar desculpas para si e para os outros, você só incentiva a perversão do outro.

     

    #3

    Gaslighting

    Escrevi sobre Gaslighting neste artigo. Vale a leitura aprofundada. Resumidamente, trata-se de um jogo de poder usado por indivíduos que percebem fragilidade no outro, ou que percebe neste outro uma porta aberta para sofrer manipulações. Utiliza-se da força de sua autoridade (como pai, mãe, professor, irmão mais velho, tio, chefe, marido, esposa, padre, pastor…) para controlar e subjugar o outro. Nega o que foi dito, manipula situações, fragiliza o emocional do outro, confunde-o, e, ao final, ainda reforça tudo isso dizendo que o outro está ficando louco ou que não entendeu nada. O objetivo é minar suas percepções, seu nível de confiança, sua insegurança, sua fragilidade.

     

    #4

    Desprezar o que você fala, sente e pensa

    Fazer piadas sobre você, ou virar os olhos para expressar o desprezo por você, por suas palavras e por suas ações. Isso nunca pode ser considerado bom numa relação e sempre visa exercer controle sobre você. Todo relacionamento saudável requer respeito mútuo. O livro A Equação do Casamento de Luiz Hanns é uma fonte riquíssima sobre o assunto. Vale a leitura.

     

    #5

    Projetar os próprios sentimentos no outro

    No livro Como se defender dos manipuladores, o autor Yves-alexandre Thalmann aponta isso como uma das estratégias favoritas do manipulador: jogar a batata quente para o outro. Ao invés de assumir a responsabilidade por suas próprias ações e emoções, ele projeta em você tentando tornar a raiva dele em raiva sua, o erro dele em erro seu, o desequilíbrio dele em desequilíbrio seu. Ele projeta em você o que está dentro dele. Isso muda o equilíbrio de poder de uma maneira sutil, porque ao invés de se aterem ao conteúdo da discussão, você se vê obrigada a ficar na defensiva, dizendo que não está com raiva, que o erro não foi seu ou que não é você que está louca.

     

    #6

    Manipular suas inseguranças

    Esta é outra estratégia de manipulação parecida com o Gaslighting. Mas é pior, pois objetiva impedi-la de expressar-se para mantê-la contida e controlada. Com esse comportamento, o manipulador se aproveita do conhecimento que tem a seu respeito (por exemplo, de que você fica com medo quando alguém grita, de que você provavelmente foge se for desafiada, ou de que um comentário maldoso sobre seu peso a deixará triste) e o usará para se assegurar de que você permanecerá obedecendo ou calada. Essa é uma das formas de comportamento mais difíceis de se observar, mas, se ao ler estas palavras você sentiu algum sinal vermelho acender dentro de você, é possível que esteja navegando nessas águas.

     

    #7

    Não permitir argumentações

    A recusa em ouvir ou mesmo discutir um problema que você mencionou é um dos comportamentos mais tóxicos de todos. Não só é frustrante como deprecia a relação. Talvez você acabe assumindo a responsabilidade da situação para si, já que o outro se recusa a conversar sobre o assunto. Mas essa é a pior decisão que você pode tomar, pois cria um hábito negativo e mantém a força dessa estratégia de manipulação.

    Todos esses comportamentos reforçam o controle de um indivíduo sobre o outro e estão no lado oposto de comportamentos voltados para uma relação saudável e de respeito mútuo.

    Às vezes é preciso buscar força num círculo de amigos verdadeiros e também em terapia para capacitar-se a ressignificar tais relações, ou, num caso extremo, até mesmo excluí-las de sua vida.

    Como já dizia Freud: Antes de diagnosticar a si mesmo com depressão ou baixa autoestima, primeiro tenha certeza de que não está cercado, de fato, por idiotas.

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  • Onipotência: não, ninguém virá lhe salvar. Tampouco você salvará alguém.
    Por Alenne Namba

     

    Depois de começar a assistir a série Cosmos, criada pelo cientista e astrofísico Carl Sagan, comecei a me dar conta do nosso tamanho diante do Universo. A cada episódio, levamos um golpe atrás do outro, somos convidados a nos colocar no nosso devido lugar diante de uma magnitude real muitas vezes inimaginável. A conclusão de Sagan ao questionar a ilusão de que temos uma posição privilegiada no Universo é um tapa na cara que nos permite acordar de tal fantasia. E é por isso que decidi escrever este artigo. Hoje iremos falar sobre Onipotência.

    Não só Carl Sagan nos ajuda a questionar a onipotência humana. Também contamos com Copérnico, ao defender que os planetas giram em torno do Sol e não da Terra. E também nos ajuda Freud, ao afirmar que o Ego não era senhor na própria casa. Ou seja, somos desamparados e só nos resta aceitar isso: sua vida é de sua responsabilidade. Ninguém virá de fora para lhe salvar.

    E para muitos, isso é desesperador.

    Diferentemente da inteligência animal, que se encontra presa a determinantes biológicos, a inteligência humana não vem pronta, encontra-se solta e vai sendo construída ao longo do desenvolvimento.

    O mesmo acontece com a sexualidade e a agressividade. O animal não usa sua inteligência, sexualidade e agressividade para fins positivos ou negativos. Eles usam pelo instinto de sobrevivência e perpetuação da espécie. Já os humanos podem usar sua inteligência, sexualidade e agressividade para o bem ou para o mal.

    Você não irá ler nos jornais uma manchete noticiando um estupro de uma girafa por um elefante. Mas entre humanos sim. Também não lerá nos noticiários um leão ganhando um prêmio Nobel por descobertas tecnológicas que ajudaram na cura de uma doença grave. Mas entre humanos sim. Como humanos, direcionamos nossa energia, nossos impulsos, para o bem e para o mal. É também por isso que inteligência intelectual não está diretamente ligada a inteligência emocional e vice-versa.

    Por isso mesmo, faz-se necessário impormos limites a esses impulsos, uma vez que não vivemos sozinhos e sim num mundo compartilhado com outros humanos, com animais, com toda a natureza.

    Aquele que deseja ocupar um cargo, por exemplo, pode se sentir obrigado a agir de modo ético e assim, limitar seu desejo. “Só faz sentido para mim se eu conseguir ganhar esta posição de modo honesto, sem mentir, manipular ou agredir durante o percurso.”

    Aquele que deseja fazer o bem, também pode refrear seu desejo ao perceber que corre risco de vida numa situação de ajuda humanitária em meio a uma guerra, por exemplo.

    É aqui que entra o cerne da Psicanálise: o Complexo de Édipo. Este fenômeno que faz o papel do castrador, do limitador, do direcionador dos impulsos humanos. “Se eu, enquanto criança, não posso ter todo o amor de minha mãe já que ela se relaciona com meu pai, então precisarei direcionar meu amor/ódio para outro lugar.” É o Complexo de Édipo que irá frustrar a onipotência infantil, de que o mundo gira ao seu redor e todos os seus desejos devem ser prontamente atendidos.

    Caso a castração consiga ocorrer de modo minimamente eficaz, a criança irá internalizar esse superego, herdeiro do Complexo de Édipo, e passará a se vigiar a partir dali. “Embora eu queira muito, não posso fazer isso, não posso fazer aquilo, é melhor eu pensar duas vezes, vou ter de abrir mão daquilo…”

    E quem faz o papel do superego antes de ele ser internalizado? Em princípio, os pais, ou cuidadores, ou seja, as pessoas mais importantes para aquele pequeno ser em desenvolvimento. Quem cuida também é aquele que limita. Neste caso, a criança pensa: “se eu fizer o que desejo, posso perder o amor de meus pais, e então quem vai me proteger?” O medo do desamparo ativa o sistema de proteção na criança: “Se quiser ser amado, terei de reprimir meus desejos… Tenho de afastar para bem longe meus impulsos.”

    Quanto mais repressão, mais neuroses crescerão com este indivíduo, pois os impulsos sempre serão descarregados, de um modo ou de outro. Se não forem sublimados, serão descarregados em forma de sintomas, ou seja, de comportamentos que muitas vezes fazem o próprio indivíduo sofrer sem saber por que age daquela forma.

    Se os impulsos são sublimados ou usados como pulsão de vida, vai usar essa energia para criar, experimentar e produzir. Se for usado como pulsão de morte, fará mal a si mesmo ou ao outro.

    O ser em desenvolvimento poderia simplesmente aceitar os “nãos” impostos ao longo da vida. Mas não é o que costuma ocorrer…  Muitas vezes os próprios pais não conseguem proceder à castração, e o filho permanece com seu narcisismo infantil sendo alimentado.

    Dificilmente você ouve frases como:

    Eu aceito que não posso tudo, de coração.

    Ok, se perdi essa oportunidade. Outras virão.

    Eu não tenho pai rico, mas não tenho nenhuma inveja de você que tem.

    Eu não nasci para ser magra, mas estou satisfeita com meu corpo.

    Trabalho o dia todo e cuido dos meus filhos no tempo que disponho. E tudo bem.

    Eu tenho de me sustentar. Não tenho alguém para fazer isso por mim. Aceito bem isso.

    Não vou ter a carreira de sucesso do meu primo, como meu pai queria. Mas não sofro por isso.

    Não consigo pagar a viagem dos sonhos de minha esposa. Mas ok. Convivemos bem com nossa realidade.

    A família do meu noivo não me aceita tão bem assim. Mas não me importo. Não serei amada por todos, né?

    Meu crush não está apaixonado por mim. Tudo bem. Bola para frente.

    Meu namorado terminou comigo e já está saindo com outra. Ele tem o direito, né?

    Queria descansar quando chegasse à noite em casa, depois de um dia cansativo de trabalho. Mas tenho de estudar. Ok. É a minha escolha hoje.

    Não consegui passar neste concurso. Vou continuar estudando até conseguir passar. Tranquilamente.

    Esse processo terapêutico é demorado. Mas compreendo que minhas questões são complexas e que tenho minhas resistências.

    Meu chefe ganhou na justiça a ação que impetrei contra ele. Uma decisão injusta e questionável. Mas já se esgotaram todas as instâncias. Vida que segue.

    Todos estes exemplos são recortes da vida real. Mas o indivíduo onipotente nega a realidade e entra numa batalha de Ego. De um lado as faltas, os vazios, o desamparo se impondo em sua frente, de outro o desejo de ter seu impulso atendido.

    Todos estamos em algum ponto dessa jornada. Alguns mais conscientes, especialmente aqueles que buscam se conhecer. Outros ainda nos braços da criança interna chorona e reclamona que não se responsabiliza por nada e que ainda deseja que algo externo resolva seus problemas.

    Parecem duras as palavras, mas todos carregam essa criança birrenta dentro de si. Há quem se assuste e negue. Há quem admita e trabalhe para lidar com ela.

    Ou seja, a encruzilhada é: diante do “não”, da frustração, da limitação, do vazio, do desamparo, ou posso aceitar e continuar minha caminhada cheia de pulsão de vida, produzindo, criando… ou negar e entrar na fantasia. É não suportar o vazio, o desamparo, que gera a neurose e junto com ela, a angústia.

    Encarar as próprias angústias, os próprios vazios, faz possível quebrar esse mecanismo onipotente. Entretanto, e infelizmente, a onipotência não só é vista como algo aceitável como, mais ainda, admirável. Vivemos numa época em que nossos desejos são atendidos num apertar de um botão. A tecnologia nos atende aonde quisermos e nos termos que quisermos. Drogas, sexo, roupas, comida? “Tudo aqui, ao alcance de um clique.” Quer fugir desse sentimento angustiante, do estresse, do cansaço? “Toma aqui um remedinho ou então muda o foco, pensa em outra coisa que passa, deixe de ser negativo, você precisa ser forte senão não vai atingir seu melhor potencial! Você pode, você consegue, você é f#&a!”

    Isso só reforça a onipotência. E quantos não são os livros, palestras, campanhas de marketing, discursos empresariais e políticos que reforçam essa fantasia?

    Leia também o artigo Reflexões sobre a banalização do mal

    A pessoa onipotente não produz para o bem, não cria, sente-se superior ou vítima, só reclama, não aceita, gera conflito consigo e com quem está ao redor. A onipotência não permite o desenvolvimento do verdadeiro self, vive às custas do falso self. A pessoa parece ser forte e superior, mas não é.

    Como assim não fizeram questão da minha presença?

     Como assim não serei o melhor vendedor?

    Como assim fulano não gosta de mim?

    Como assim não pensaram em fazer uma festa surpresa para mim?

    Como assim meu namorado não pensa como eu?

    Como assim meu filho não faz o que quero?

    Como assim não entendem o que digo?

    Como assim isso está acontecendo comigo?

    Como assim terei de me virar?

    Se você se identificou com este conteúdo, talvez seja a hora de criar coragem de enfrentar suas próprias fraquezas, de encarar suas vulnerabilidades. Aceitar o que você é, o que não é e tudo o que não conseguirá ser. Elaborar o Édipo. Usar a energia do impulso para algo bom, apesar de suas limitações.

    Quem consegue seguir nesta direção também sofre, tanto quanto quem não consegue. A diferença é que enquanto um se coloca no papel de vítima, o outro busca se responsabilizar e se levantar mais rápido e mais consciente da queda.

    Sempre me perguntam por que a Psicanálise demora. Digo que nosso foco de trabalho não é o sintoma, os comportamentos humanos conscientes, e sim a origem onde são formados esses sintomas. Para chegar lá, vamos mergulhando profundamente, analisante e analista, neste grande mundo interno em busca das faltas, dos buracos, dos vazios. Ou seja, o foco da Psicanálise é o desamparo. Precisamos percorrer um longo (e muitas vezes árduo) caminho.

    Saber que não somos o filhinho ou a filhinha querida do papai ou da mamãe, que não somos a única coisa que falta para que o mundo seja melhor, saber disso racionalmente é fácil. Difícil é sentir.

    A Psicanálise busca auxiliar o indivíduo a chegar ao lugar comum, entender suas limitações pessoais e sociais e compreender que se é somente mais uma gota neste grande oceano que somos todos nós. Nem mais, nem menos. E, ao mesmo tempo que isso pode ser triste, também pode ser libertador.

    Libertador porque é um grande peso levar consigo a ideia de que você tem uma importância excessiva no mundo. Talvez seus pais tenham lhe criado assim, mas é exatamente esta forma de se ver que gera as angustiantes repetições que tanto lhe fazem sofrer, que lhe fazem acreditar que você merece tudo e não pode abrir mão de nada.

    Passar pelo caminho do autoconhecimento irá lhe ajudar a desapegar, a carregar uma mala mais leve, a encontrar o seu verdadeiro valor e não um valor baseado na fantasia.

    Entretanto, toda mudança de identidade envolve luto. Neste caso, o que precisa se deixar morrer é a identidade infantil. A terapia pretende superar essas necessidades infantis onipotentes, mas para isso será necessário coragem para encarar esse luto.

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  • Gaslighting: como saber se você é uma vítima?
    Por Alenne Namba

    “Ah, eu estava brincando…”
    “O que é isso? Você está de TPM hoje?”
    “Pára, pára, pára, você consegue me tirar do sério!”
    “Nossa, como você é sensível, se dói por qualquer coisa!”
    “Você está ficando louca. Ou então quer me deixar louco!”

    Alguma dessas frases é comum para você?

    Já se sentiu culpada depois de ter reagido a alguma situação que considerava desrespeitosa e acabou se sentindo envergonhada por isso?

    Se você respondeu sim. Pode ter sofrido ou estar sofrendo gaslighting.

    Gaslighting é uma forma maliciosa e extremamente perigosa de abuso psicológico e emocional. O objetivo do manipulador é fazer a vítima duvidar de suas próprias percepções e até mesmo de sua sanidade, plantando dúvida, culpa e incerteza de julgamento.

    Como todo abuso, o gaslighting é usado pela necessidade de manter-se numa posição superior, de controle e poder sobre a vítima. Ou possui o objetivo de ganhar algo direta ou indiretamente. Algumas pessoas podem mentir ou usar a negação para evitar assumir a responsabilidade sobre suas ações. Ou podem esquecer ou lembrar conversas e eventos de forma diferente do que realmente ocorreu, a fim de colocar a situação ao seu favor. Para piorar, os manipuladores também são capazes de agir com muita gentileza, encanto e sedução, principalmente no início de um relacionamento amoroso.

    Infelizmente, este tipo de abuso é muito difícil de ser percebido, pois muitas vezes não suspeitamos que aqueles que amamos sejam capazes de agir assim conosco. Entretanto, é muito comum que em algum momento da sua vida você tenha sido (ou ainda seja) vítima de gaslighting nas suas relações com seus pais, companheiros, parentes, amigos, chefes, colegas de trabalho… E pode conviver com essa relação por anos sem se dar conta dos efeitos que porventura podem surgir.

    O termo gaslighting deriva do filme À Meia Luz (Gaslight – 1944) com Ingrid Bergman e Charles Boyer. Bergman interpreta uma esposa ingênua, chamada Paula, que testemunhou o assassinato de sua tia. Mais tarde, casa-se com Gregory (Boyer) na Itália, e retorna a Londres para morar na casa que herdara da tia, onde ocorrera o assassinato. Paula, lentamente, começa a duvidar de sua sanidade, pois o marido insiste em persuadi-la de que ela está se tornando esquecida e agindo de maneira esquisita. Ele troca objetos de lugar para confundi-la, faz barulhos à noite para assustá-la, limita suas saídas de casa e convence parentes e amigos de que a esposa não está bem. Ao longo de todo o filme, Paula luta para preservar sua identidade em um casamento abusivo, em que é constantemente induzida a acreditar que está doente. Tudo isso para evitar que ela saiba de toda a verdade.

    Não consegui encontrar essa refilmagem, mas assisti o filme original (1940) que vale cada segundo. Você pode clicar aqui para assisti-lo.

    Assim como bem mostra o filme que cunhou o termo gaslighting, trata-se de um tipo de abuso que raramente deixa pistas. Assemelha-se com a Síndrome de Estocolmo, em que a vítima, incapaz de perceber a realidade, torna-se cada vez mais dependente de seu algoz. Dois filmes que tratam desta síndrome e que valem o tempo investido são O Quarto de Jack (2015) e 3096 Dias (2012).

     

    Como funciona o Gaslighting?

    Se você cresceu sendo manipulado ou convivendo com relações de manipulação, é mais difícil discernir o que está acontecendo, porque, para você, soa familiar. Você pode até sentir um certo desconforto ou raiva, mas aparentemente o manipulador pode usar táticas que sugiram que está até lhe ajudando. Assim como no filme, ele pode usar palavras agradáveis e carinhosas, demonstrar preocupação e cuidado, e isso faz com que você tenha dúvidas sobre o que ouve e o que sente. Algo não encaixa, mas você não pode ter certeza e acaba deixando passar.

    É possível que pais manipulem o filho a fazer o que eles acham certo, sugerindo com gentileza e até com um tom de preocupação e zelo. Entretanto, não estão abertos a discutir as ideias do próprio filho, nem a capacidade dele de encontrar as próprias soluções, mesmo que diferentes da dos pais.

    E há também aqueles pais que manipulam mais abertamente entre si, como casal; e entre eles e os filhos. E isso se torna um lugar comum para uma futura vítima de gaslighting. Assista A Fita Branca e entenda como este abuso pode ocorrer numa “boa” intenção de educar os filhos.

    Para continuar a jogar com o seu psicológico, o abusador pode oferecer provas de que você está errado ou questionar sua memória ou suas dúvidas. Justificativas e explicações são usadas para confundir a vítima e afastar suspeitas. Temporariamente você fica tranquila, mas com o passar do tempo voltam as incertezas e você fica cada vez mais confusa sobre suas próprias percepções. Em alguns casos, as vítimas realmente acreditam que estão ficando loucas.

    Outro comportamento comum do manipulador é agir com agressividade, mesmo que não parta para a agressão física. Grita, agita-se, indigna-se, joga contra a vítima desafiando-a ou questionando-a. Fala que ela é desconfiada, chata, ingrata, muito sensível, que fala demais, idiota, insegura, louca… Intimidações, ameaças e punições também fazem parte do pacote.

    O gaslighting não ocorre, como disse, somente em suas relações pessoais. É bem corriqueiro percebê-lo acontecendo nas relações profissionais. Ali se vê controle, enganação, superioridade, poder. Um colega de trabalho pode, por exemplo, espalhar fofocas sobre um desafeto para poder ocupar seu cargo. Uma colega de trabalho pode, por exemplo, manipular informações entre seu chefe e seus subordinados para que ela seja querida por todos. Um cliente pode, por exemplo, insistir num pedido de desconto que o profissional não tem capacidade para dar. Um vendedor pode, por exemplo, oferecer seu produto forçando o cliente a aceitar a oferta naquele instante sem dar-lhe tempo para pensar, sob pena de não conseguir aquele valor mais tarde.

    No relacionamento amoroso, um namorado pode pedir dinheiro emprestado para a parceira, para que ela pague suas dívidas ou lhe compre coisas. Promete que irá pagar, mas está sempre endividado. E o ciclo nunca se rompe. Ele faz charme, mostra-se um companheiro super carinhoso e sexualmente competente. Também age como uma vítima de todos e diz que a única pessoa que o acolhe e com quem pode contar é com você. Confrontá-lo traria uma culpa enorme.

    Uma esposa pode, por exemplo, minar a autoestima do marido atacando sua masculinidade, sua falta de dinheiro ou sua inércia. Um marido pode prejudicar a autoconfiança da esposa, criticando seu corpo, sua aparência ou sua competência como mãe ou profissional.

    Outra estratégia muito utilizada é afastar a vítima de familiares e amigos, para que ela não questione e ele obtenha mais controle sobre a relação.

    Costuma usar a culpa dizendo direta ou indiretamente frases como: “Você é uma ingrata, depois de tudo o que fiz por você”. Ou pode fazer-se de vítima: “Eu sou um lixo mesmo. Nada do que faço lhe agrada…”

    Negam promessas e acordos o tempo todo, alegando esquecimento ou simplesmente negando diretamente ou fugindo das argumentações. E culpam a vítima ao final dizendo que está deixando-o louco ou que ela está ficando louca.

    A chantagem emocional também é um tipo de manipulação que pode incluir o uso de raiva, intimidação, ameaças, vergonha ou culpa. Ela pode até vir em forma de elogio: “Me surpreende você, que é tão inteligente, agir assim…” ou “Não acredito que você está me cobrando esse dinheiro. Depois vem dizer que não é dinheirista”.

    Também são clássicas as frases: “Na sua idade e com filhos você não vai encontrar outra pessoa. É melhor nem pensar em se divorciar de mim, senão vai ficar sozinha” ou se fazer de vítima com “Se você se separar, eu vou morrer”.

    Eu sei que trouxe exemplos demais aqui, mas o objetivo é que você se identifique com algum deles, caso esteja sendo vítima de um relacionamento abusivo. E, identificando-se, procure ajuda.

     

    Quando a verdade aparece

    O amor, a dependência e o apego são fortes incentivos para que a vítima continue acreditando nas mentiras e na manipulação. Ela nega a situação para os outros e para si mesma, pois prefere acreditar na própria fantasia que na realidade. Esta, muitas vezes, pode provocar uma ruptura muito dolorosa. E nem todos estão dispostos a lidar com essa dor. Embora muitas dores sejam também libertadoras…

    Também é bastante comum que a negação continue ocorrendo mesmo após a verdade surgir. Às vezes é preciso tempo para integrar todos os fatos e sentimentos de toda a experiência vivida, pois a realidade pode ser bastante confusa. Se você foi uma criança que sempre conviveu com manipulações em casa, pode acreditar que elas naturalmente fazem parte das relações de amor.

    Embora não seja comum que o manipulador queira perder essa relação de superioridade, controle e poder sobre o outro, ainda é possível que isto ocorra. Neste caso, quando ambos estão motivados a criar um relacionamento equilibrado e saudável e trabalharem juntos nesta direção, uma terapia de casal pode fortalecer os laços e permitir as pazes com o passado.

     

    Como recuperar-se?

    Espero que este artigo lhe ajude a identificar os padrões de funcionamento do gaslighting. Se você se percebeu aqui, saiba que precisa fortalecer sua autoestima e sentimento de segurança. É essencial que procure ajuda e possa contar com uma rede de amigos e pessoas que possam acolhê-la. Embora a vergonha de se perceber sofrendo gaslighting seja bastante comum, isolar-se só irá piorar o problema.

    Por isso é importante conhecer os padrões e reconhecê-los dentro do seu relacionamento, para que você seja capaz de reagir. Você não conseguirá mudar a outra pessoa. Essa é uma ilusão tão corriqueira… Você não é a salvadora de ninguém. Quem possui esse poder? Mas tem o poder sim de salvar-se. Se ambos estiverem dispostos, então as chances de mudança aumentam. Mas se o abusador é viciado em controle ou possui algum transtorno de personalidade, então a mudança será bem improvável.

    Para ler mais sobre este assunto, sugiro também a leitura do eBook gratuito Como lidar com um egoísta.

    E, se quiser aprofundar-se mais ainda, sugiro a leitura do livro Como se defender de manipuladores, do professor e psicólogo clínico na França e na Suíça, Yves-Alexandre Thalmann.

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