• Onipotência: não, ninguém virá lhe salvar. Tampouco você salvará alguém.
    Por Alenne Namba

     

    Depois de começar a assistir a série Cosmos, criada pelo cientista e astrofísico Carl Sagan, comecei a me dar conta do nosso tamanho diante do Universo. A cada episódio, levamos um golpe atrás do outro, somos convidados a nos colocar no nosso devido lugar diante de uma magnitude real muitas vezes inimaginável. A conclusão de Sagan ao questionar a ilusão de que temos uma posição privilegiada no Universo é um tapa na cara que nos permite acordar de tal fantasia. E é por isso que decidi escrever este artigo. Hoje iremos falar sobre Onipotência.

    Não só Carl Sagan nos ajuda a questionar a onipotência humana. Também contamos com Copérnico, ao defender que os planetas giram em torno do Sol e não da Terra. E também nos ajuda Freud, ao afirmar que o Ego não era senhor na própria casa. Ou seja, somos desamparados e só nos resta aceitar isso: sua vida é de sua responsabilidade. Ninguém virá de fora para lhe salvar.

    E para muitos, isso é desesperador.

    Diferentemente da inteligência animal, que se encontra presa a determinantes biológicos, a inteligência humana não vem pronta, encontra-se solta e vai sendo construída ao longo do desenvolvimento.

    O mesmo acontece com a sexualidade e a agressividade. O animal não usa sua inteligência, sexualidade e agressividade para fins positivos ou negativos. Eles usam pelo instinto de sobrevivência e perpetuação da espécie. Já os humanos podem usar sua inteligência, sexualidade e agressividade para o bem ou para o mal.

    Você não irá ler nos jornais uma manchete noticiando um estupro de uma girafa por um elefante. Mas entre humanos sim. Também não lerá nos noticiários um leão ganhando um prêmio Nobel por descobertas tecnológicas que ajudaram na cura de uma doença grave. Mas entre humanos sim. Como humanos, direcionamos nossa energia, nossos impulsos, para o bem e para o mal. É também por isso que inteligência intelectual não está diretamente ligada a inteligência emocional e vice-versa.

    Por isso mesmo, faz-se necessário impormos limites a esses impulsos, uma vez que não vivemos sozinhos e sim num mundo compartilhado com outros humanos, com animais, com toda a natureza.

    Aquele que deseja ocupar um cargo, por exemplo, pode se sentir obrigado a agir de modo ético e assim, limitar seu desejo. “Só faz sentido para mim se eu conseguir ganhar esta posição de modo honesto, sem mentir, manipular ou agredir durante o percurso.”

    Aquele que deseja fazer o bem, também pode refrear seu desejo ao perceber que corre risco de vida numa situação de ajuda humanitária em meio a uma guerra, por exemplo.

    É aqui que entra o cerne da Psicanálise: o Complexo de Édipo. Este fenômeno que faz o papel do castrador, do limitador, do direcionador dos impulsos humanos. “Se eu, enquanto criança, não posso ter todo o amor de minha mãe já que ela se relaciona com meu pai, então precisarei direcionar meu amor/ódio para outro lugar.” É o Complexo de Édipo que irá frustrar a onipotência infantil, de que o mundo gira ao seu redor e todos os seus desejos devem ser prontamente atendidos.

    Caso a castração consiga ocorrer de modo minimamente eficaz, a criança irá internalizar esse superego, herdeiro do Complexo de Édipo, e passará a se vigiar a partir dali. “Embora eu queira muito, não posso fazer isso, não posso fazer aquilo, é melhor eu pensar duas vezes, vou ter de abrir mão daquilo…”

    E quem faz o papel do superego antes de ele ser internalizado? Em princípio, os pais, ou cuidadores, ou seja, as pessoas mais importantes para aquele pequeno ser em desenvolvimento. Quem cuida também é aquele que limita. Neste caso, a criança pensa: “se eu fizer o que desejo, posso perder o amor de meus pais, e então quem vai me proteger?” O medo do desamparo ativa o sistema de proteção na criança: “Se quiser ser amado, terei de reprimir meus desejos… Tenho de afastar para bem longe meus impulsos.”

    Quanto mais repressão, mais neuroses crescerão com este indivíduo, pois os impulsos sempre serão descarregados, de um modo ou de outro. Se não forem sublimados, serão descarregados em forma de sintomas, ou seja, de comportamentos que muitas vezes fazem o próprio indivíduo sofrer sem saber por que age daquela forma.

    Se os impulsos são sublimados ou usados como pulsão de vida, vai usar essa energia para criar, experimentar e produzir. Se for usado como pulsão de morte, fará mal a si mesmo ou ao outro.

    O ser em desenvolvimento poderia simplesmente aceitar os “nãos” impostos ao longo da vida. Mas não é o que costuma ocorrer…  Muitas vezes os próprios pais não conseguem proceder à castração, e o filho permanece com seu narcisismo infantil sendo alimentado.

    Dificilmente você ouve frases como:

    Eu aceito que não posso tudo, de coração.

    Ok, se perdi essa oportunidade. Outras virão.

    Eu não tenho pai rico, mas não tenho nenhuma inveja de você que tem.

    Eu não nasci para ser magra, mas estou satisfeita com meu corpo.

    Trabalho o dia todo e cuido dos meus filhos no tempo que disponho. E tudo bem.

    Eu tenho de me sustentar. Não tenho alguém para fazer isso por mim. Aceito bem isso.

    Não vou ter a carreira de sucesso do meu primo, como meu pai queria. Mas não sofro por isso.

    Não consigo pagar a viagem dos sonhos de minha esposa. Mas ok. Convivemos bem com nossa realidade.

    A família do meu noivo não me aceita tão bem assim. Mas não me importo. Não serei amada por todos, né?

    Meu crush não está apaixonado por mim. Tudo bem. Bola para frente.

    Meu namorado terminou comigo e já está saindo com outra. Ele tem o direito, né?

    Queria descansar quando chegasse à noite em casa, depois de um dia cansativo de trabalho. Mas tenho de estudar. Ok. É a minha escolha hoje.

    Não consegui passar neste concurso. Vou continuar estudando até conseguir passar. Tranquilamente.

    Esse processo terapêutico é demorado. Mas compreendo que minhas questões são complexas e que tenho minhas resistências.

    Meu chefe ganhou na justiça a ação que impetrei contra ele. Uma decisão injusta e questionável. Mas já se esgotaram todas as instâncias. Vida que segue.

    Todos estes exemplos são recortes da vida real. Mas o indivíduo onipotente nega a realidade e entra numa batalha de Ego. De um lado as faltas, os vazios, o desamparo se impondo em sua frente, de outro o desejo de ter seu impulso atendido.

    Todos estamos em algum ponto dessa jornada. Alguns mais conscientes, especialmente aqueles que buscam se conhecer. Outros ainda nos braços da criança interna chorona e reclamona que não se responsabiliza por nada e que ainda deseja que algo externo resolva seus problemas.

    Parecem duras as palavras, mas todos carregam essa criança birrenta dentro de si. Há quem se assuste e negue. Há quem admita e trabalhe para lidar com ela.

    Ou seja, a encruzilhada é: diante do “não”, da frustração, da limitação, do vazio, do desamparo, ou posso aceitar e continuar minha caminhada cheia de pulsão de vida, produzindo, criando… ou negar e entrar na fantasia. É não suportar o vazio, o desamparo, que gera a neurose e junto com ela, a angústia.

    Encarar as próprias angústias, os próprios vazios, faz possível quebrar esse mecanismo onipotente. Entretanto, e infelizmente, a onipotência não só é vista como algo aceitável como, mais ainda, admirável. Vivemos numa época em que nossos desejos são atendidos num apertar de um botão. A tecnologia nos atende aonde quisermos e nos termos que quisermos. Drogas, sexo, roupas, comida? “Tudo aqui, ao alcance de um clique.” Quer fugir desse sentimento angustiante, do estresse, do cansaço? “Toma aqui um remedinho ou então muda o foco, pensa em outra coisa que passa, deixe de ser negativo, você precisa ser forte senão não vai atingir seu melhor potencial! Você pode, você consegue, você é f#&a!”

    Isso só reforça a onipotência. E quantos não são os livros, palestras, campanhas de marketing, discursos empresariais e políticos que reforçam essa fantasia?

    Leia também o artigo Reflexões sobre a banalização do mal

    A pessoa onipotente não produz para o bem, não cria, sente-se superior ou vítima, só reclama, não aceita, gera conflito consigo e com quem está ao redor. A onipotência não permite o desenvolvimento do verdadeiro self, vive às custas do falso self. A pessoa parece ser forte e superior, mas não é.

    Como assim não fizeram questão da minha presença?

     Como assim não serei o melhor vendedor?

    Como assim fulano não gosta de mim?

    Como assim não pensaram em fazer uma festa surpresa para mim?

    Como assim meu namorado não pensa como eu?

    Como assim meu filho não faz o que quero?

    Como assim não entendem o que digo?

    Como assim isso está acontecendo comigo?

    Como assim terei de me virar?

    Se você se identificou com este conteúdo, talvez seja a hora de criar coragem de enfrentar suas próprias fraquezas, de encarar suas vulnerabilidades. Aceitar o que você é, o que não é e tudo o que não conseguirá ser. Elaborar o Édipo. Usar a energia do impulso para algo bom, apesar de suas limitações.

    Quem consegue seguir nesta direção também sofre, tanto quanto quem não consegue. A diferença é que enquanto um se coloca no papel de vítima, o outro busca se responsabilizar e se levantar mais rápido e mais consciente da queda.

    Sempre me perguntam por que a Psicanálise demora. Digo que nosso foco de trabalho não é o sintoma, os comportamentos humanos conscientes, e sim a origem onde são formados esses sintomas. Para chegar lá, vamos mergulhando profundamente, analisante e analista, neste grande mundo interno em busca das faltas, dos buracos, dos vazios. Ou seja, o foco da Psicanálise é o desamparo. Precisamos percorrer um longo (e muitas vezes árduo) caminho.

    Saber que não somos o filhinho ou a filhinha querida do papai ou da mamãe, que não somos a única coisa que falta para que o mundo seja melhor, saber disso racionalmente é fácil. Difícil é sentir.

    A Psicanálise busca auxiliar o indivíduo a chegar ao lugar comum, entender suas limitações pessoais e sociais e compreender que se é somente mais uma gota neste grande oceano que somos todos nós. Nem mais, nem menos. E, ao mesmo tempo que isso pode ser triste, também pode ser libertador.

    Libertador porque é um grande peso levar consigo a ideia de que você tem uma importância excessiva no mundo. Talvez seus pais tenham lhe criado assim, mas é exatamente esta forma de se ver que gera as angustiantes repetições que tanto lhe fazem sofrer, que lhe fazem acreditar que você merece tudo e não pode abrir mão de nada.

    Passar pelo caminho do autoconhecimento irá lhe ajudar a desapegar, a carregar uma mala mais leve, a encontrar o seu verdadeiro valor e não um valor baseado na fantasia.

    Entretanto, toda mudança de identidade envolve luto. Neste caso, o que precisa se deixar morrer é a identidade infantil. A terapia pretende superar essas necessidades infantis onipotentes, mas para isso será necessário coragem para encarar esse luto.

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  • como dizer não
    Por que é tão difícil dizer NÃO?
    Por Alenne Namba

     

    Quando resolvi escrever o eBook Aprenda a dizer NÃO sabia que teria um grande retorno das pessoas que me acompanham. E foi batata. Muitos foram os e-mails que recebi em que se relatava a grande dificuldade em dizer “não” e por motivos diversos.

    “Alenne, tenho medo de não me aceitarem”.

    “Alenne, tenho muito medo de acabar sozinha, sem meus pais nem meus amigos.”

    “Alenne, eu sequer sei o que quero, então é mais fácil dizer sim e seguir o que os outros esperam de mim.”

    Dizer “sim”, quando queremos dizer “não”, é realmente um mecanismo de enfrentamento que pode ter sido aprendido durante seu crescimento, mas que pode ser ressignificado se você tiver paciência e coragem de olhar bem aí dentro de você. O que ocorre é que pode ser bem assustador o que você pode descobrir sobre si e sobre seu relacionamento com as pessoas ao seu redor.

    Como falei logo acima, uma das principais razões pelas quais temos dificuldade em dizer “não” pode ser atribuída ao medo de não querer machucar os sentimentos de outra pessoa. No entanto, quando você escolhe não ferir os sentimentos alheios, pode também estar escolhendo ferir os próprios sentimentos. E, então, não está sendo fiel a si mesmo e está cada vez se distanciando de si próprio.

    Em meus atendimentos, ouço repetidas vezes de pacientes com dificuldade em dizer “não” que se sentem obrigados a se colocarem no lugar do outro: “Alenne, como posso não ajudar fulano, quando ele me pede? Se eu estivesse no lugar dele, apreciaria a ajuda!”

     

    Entretanto, embora convivamos com pessoas capazes de atos altruístas todo o tempo, infelizmente convivemos com muitas pessoas não tão altruístas assim. Muitas delas, inclusive, bem egoístas. E, apesar de ser duro encarar isso, é necessário (sugiro a leitura do eBook Como lidar com um egoísta).

    Então, essa ideia de nos colocarmos no lugar do outro, na esperança de que o outro faça o mesmo por nós, é bastante inocente e irreal. E, por mais que o que acabei de dizer seja, como disse, duro de ouvir, questione-se e faça uma retrospectiva de todas as pessoas que você ajudou com os “sins” que deu em sua vida e responda: todas foram gratas e devolveram sua atitude com a mesma generosidade?

    O ponto crucial aqui para se compreender não é o fato de aprender a dizer “não” porque os outros não lhe devolverão na mesma moeda. Não é isso. O ponto aqui é fazer o que você precisa fazer, seja dizer “sim” ou dizer “não”, consciente de que nem sempre o outro lhe responderá da forma como você espera e imagina.

    Outro aspecto prejudicial em se dizer “sim” constantemente é manter o outro dependente de você, ou ainda criar no outro a expectativa de que ele tem o direito que você diga “sim” sempre para tudo o que ele pedir. E isso ultrapassa todos os limites de relacionamento entre duas pessoas, pois você também tem o direito de negar auxílio, caso sinta que é o melhor a se fazer. Além disso, uma vez que você sai do padrão de fazer coisas que você não quer fazer ou coisas que lhe causam desconforto, você começará sentir um gostinho de liberdade nessa mesma relação com o outro. Nem você é preso ao outro, nem o outro é preso a você.

    Ou seja, ao aprender a dizer “não”, você pode aumentar sua confiança, reduzirá o número de pessoas que lhe demandam em excesso e criará a oportunidade de construir relacionamentos mais sinceros em sua vida.

    Você pode ter dificuldade de dizer “não” por diversos motivos:

    Medo de magoar alguém

    Medo de não ser aceita

    Medo de ser percebida como egoísta

    Necessidade de secolocar no lugar da outra pessoa

    Necessidade de socializar para ser legal

    Medo de ser percebida como reativa

    Medo de se chatearem com você

    Dificuldade em estabelecer limites

    Se você se enxergou na lista acima, aproveite, então, para baixar o eBook Aprenda a dizer NÃO. São 80 páginas gratuitas que lhe auxiliarão a sentir-se capaz de dizer “não” sem se prejudicar nem decepcionar ninguém.

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  • Adultos que nunca crescem
    Por Alenne Namba

    Narcisismo é um dos termos mais importantes da Teoria Psicanalítica. E, embora hoje esse termo esteja sendo usado de forma bastante corriqueira, há uma enorme complexidade em sua definição.

    Se por um lado o narcisismo possui um papel fundamental na constituição psíquica do sujeito, uma vez que é importante se ter a sensação de que somos amados e valorizados para um desenvolvimento emocional saudável; por outro lado o narcisismo também pode retratar aquele sujeito que nutre um apreço exagerado sobre si mesmo, muitas vezes criando máscaras que disfarçam um profundo sentimento de insegurança.

    Durante a infância a criança acredita firmemente que o mundo gira ao seu redor e muitos pais ratificam essa ideia, fazendo-a acreditar nesta fantasia. Seu desenho é o mais criativo, seu sorriso é o mais belo, suas peripécias são as mais engraçadinhas, suas notas são as melhores. Outros pais, num cenário oposto, desejam esse filho perfeito, cobram essa perfeição, mas por não alcançá-la no filho, criticam e controlam em excesso. Outros pais, ainda, preocupam-se apenas com seus próprios anseios e negligenciam sua relação com os próprios filhos (leia mais aqui  e aqui sobre isso).

    Entretanto, apesar de esta imagem narcísica ser necessária até determinada fase da vida, é de real importância que a criança vá dela se distanciando na medida em que cresce e passa a ter contato com os “nãos” que os pais e a vida lhe impõem. Deparar-se com esses “nãos”, ou seja, com as frustrações da vida, são de extrema importância para um desenvolvimento mental e emocional saudável. A partir daí, a criança passa a entender que, de fato, ela não é o centro do mundo e que não precisa carregar esse fardo. Fardo este pesado demais para qualquer indivíduo carregar. Os perfeccionistas que o digam…

    Essa passagem da fantasia narcísica para a realidade da coexistência com o outro é o que trará como presente para este indivíduo em formação a possibilidade de enxergar os benefícios de se relacionar equilibradamente com um outro ser. Quando essa criança percebe que existe um outro e que existe, principalmente, diferença nesse outro, começa aí a riqueza dos laços sociais.

    Além dele próprio, existe um outro indivíduo que também deseja, que também sofre, que também experimenta, que também cai, que também levanta, que também vive e que também merece ser respeitado. Esse pensar e enxergar o outro como objeto saudável de relacionamento é algo difícil de aceitar e alcançar para um narcisista.

     

    “É que Narciso acha feio o que não é espelho”.
    Caetano Veloso

     

    E quando os pais são narcisistas?

    Pais e mães narcisistas costumam criar filhos que vão se tornar adultos, mas que irão manter uma psique infantil.

    E como isso é possível?

    Há algumas semanas, por exemplo, algumas pacientes mães relataram sua dificuldade em aceitar a escolha da roupa por parte do filho pequeno, afinal o que poderiam pensar as outras mães se sua prole saísse por aí vestida de forma desleixada? Na sua cabeça preocupada com a opinião externa, o ideal seria que elas próprias escolhessem o sapatinho para combinar com a roupa; caso contrário, a culpa pelo traje descoordenado do filho seria de quem? Da mãe!

    Não julgo, pois já fui uma mãe assim.

    Mas é necessário se questionar e refletir as razões que levam você, como pai ou mãe, a agir assim. Qual seria o problema real se seu filho saísse de casa com uma roupa que não combina com o calçado?

    Olhando mais profundamente para a questão, a resposta pode estar no receio de esta mãe ter a própria imagem maculada. E, para que isso não aconteça, ela prefere reprimir as escolhas dessa criança em formação, prefere reprimir seu potencial criativo, suas decisões.

    O fato de a criança poder escolher o que vestir, na maior parte dos casos, apresenta a ela uma grande oportunidade de fazer escolhas e lidar com elas, enriquecendo sua condição de ser humano pensante e optante.

    Outro dia ouvi uma mãe dizer que seu filho não poderia morar em outro país, pois ela sofreria demais com a falta dele. Assim como já ouvi pais decidirem pela carreira do filho, pois não aceitam esta ou aquela profissão.

    Quando os pais não propiciam ao filho possibilidades simples como estas estão abrindo mão de criarem filhos ativos, responsáveis pelas próprias escolhas e pela própria vida, ou seja, indivíduos adultos não só na idade, mas também em sua psique. E essa é uma característica que quase todos os pais narcisistas têm em comum: a necessidade de infantilizar o filho.

    Pais narcísicos costumam fazer a criança se sentir incompetente ou culpada cada vez que ela tenta algo novo. Muitas vezes essa infantilização do filho pelos pais é bastante sutil.

    Quer exemplos?

    – Arrumar o quarto do filho adolescente;
    – Oferecer uma boa mesada para que o filho não tenha de se submeter a trabalhos considerados inferiores pelos pais;
    – Lavar as roupas sujas dos filhos que já moram em suas próprias casas;
    – Preparar a comida para os filhos que já moram em suas próprias casas;
    – Cuidar da organização da casa dos filhos que já moram em suas próprias casas;
    – Reformar a casa dos filhos que já moram em suas próprias casas;
    – Arrumar a mala dos filhos adultos;
    – Ligar rotineiramente para saber se os filhos já alimentaram os netos adequadamente;
    – Ligar para os amigos dos filhos a fim de os convencerem a mudarem de ideia em algum assunto específico.

    Os exemplos são muitos e diversos, a lista aqui poderia ser bem grande, mas não irei me estender mais. O ponto em comum a todos os exemplos é que os pais estão tomando decisões ou agindo no lugar dos filhos. Filhos esses capazes de tomarem suas próprias decisões e agirem em sua plena independência.

    A questão aqui não é fazer melhor ou pior do que os filhos, ter mais experiência ou não. A questão aqui é manter os filhos sem a oportunidade de errar. Os indivíduos precisam errar para aprender. Precisam cair e encontrar dentro de si a capacidade de levantar. E isso só se concretiza quando o sujeito experimenta a vida.

    Esse tipo de comportamento parental segue da infância até a vida adulta do filho, pois um pai narcisista teme a independência do filho. Essa dinâmica possui a aparência de auxílio ao filho, mas no fundo serve para perpetuar esse filho como a extensão do seu ser, como a extensão do seu próprio narcisismo.

     

    Como funciona essa dinâmica?

    Na medida em que o filho vai percebendo essa dinâmica, os pais narcisistas usam a culpa, o controle, o medo, a manipulação e qualquer outra tática para trazerem o filho de volta. É por isso que, para muitos desses pais, a adolescência do filho costuma ser traumatizante. Eles não concebem a possibilidade de ter em sua casa um ser capaz de pensar suas próprias ideias e agir conforme suas próprias decisões. Por isso, muitas vezes, não permitem a liberdade de expressão e costumam controlar a vida deste filho, uma vez que se sentem ameaçados em sua posição.

    Essa infantilização do indivíduo é tão dolorida de se enxergar, que o filho só se dá conta de passar por isso muitos anos à frente, quando já está preso nesse emaranhado relacional com os pais. E a força que essa dinâmica traz consigo dificulta que este filho nade contra a corrente.

    Pacientes filhos de pais narcisistas costumam me pedir para dizer passo a passo o que devem fazer quando passam por conflitos em suas vidas. É como seu eu pudesse guiá-los pela mão, ocupando o lugar desses pais, substituindo-os.

    Mas o trabalho que tentamos fazer na terapia é justamente não servir de substituto para esse pai controlador e mostrar ao paciente sua capacidade de guiar a própria vida. Afinal agora é um adulto e possui sim a possibilidade de desenvolver a própria habilidade em gerenciar suas decisões e o resultado delas. Ele irá cair, mas também poderá se levantar.

    Um dos grandes temores que vejo em pacientes assim é o medo de errar. Eles acreditam que, ao errar, estarão dando razão aos pais, pois desde pequenos ouvem a célebre frase: “faça do jeito que estou lhe ensinando, pois se você fizer diferente, a culpa será toda sua.”

    Outras maneiras sutis de impedir o amadurecimento do filho podem ser:

     Reprovação
    Às vezes o olhar reprovador de um pai pode ser pior do que uma surra. Esse olhar pode desencorajar uma atitude do filho ou uma discordância de ideias ou uma escolha diferente, seja no estilo de se vestir ou no estilo de vida. Qualquer decisão que o filho tome deve primeiro passar pela aprovação desses pais. É preciso, de antemão, consultá-los, pois se algo der errado, a culpa será toda do filho. Isso reforça a crença de que o filho permanece incapaz de tomar suas próprias decisões.

     Interferência
    Muitos pais narcisistas acreditam que têm o direito de interferir na vida privada de seus filhos adultos. Isso é bem corriqueiro em consultório. Pais que procuram o analista do filho às escondidas para tratarem sobre assuntos particulares dos filhos; pais que exigem reformar a casa dos filhos, pois não confiam no bom gosto deles; pais que assumem a responsabilidade do cardápio da casa dos filhos casados; pais que escolhem as roupas que os filhos podem usar; pais que organizam a viagem dos filhos. Estou aqui falando de filhos adultos… Em ocasiões extremas podemos nos deparar com pais que sabotam deliberadamente a vida amorosa dos filhos. Novamente a fim de não perderem seu lugar privilegiado.

     Críticas excessivas
    Críticas excessivas destroem a autoconfiança do filho. Muitas mães narcisistas fazer isso com suas filhas sob o disfarce de serem “úteis”. Comentários prejudiciais sobre o seu peso, suas roupas, a escolha da profissão ou do namorado, a capacidade de ser uma boa mãe para seus netos, a falta de organização na casa da filha. Essas e outras formas de críticas servem para mostrar que o pai sabe fazer melhor. Sempre. E que têm a razão. Sempre. E os filhos crescem acreditando que, se os pais estão sempre certos, então quem são eles para desafiarem essa máxima?

    Não me surpreende que filhos de pais narcisistas, quando crescem carregam um pavor enorme de se tornarem adultos. Temem ser responsáveis por suas escolhas. São aqueles adultos que não saem da casa dos pais, que não decolam em suas carreiras, que se separam e voltam para a casa dos pais, que só tomam decisões financeiras após consultarem os pais, que almoçam diariamente na casa dos pais (mesmo tendo suas próprias casas e sendo financeiramente capazes de pagarem sua própria refeição), e por aí vai.

     

    Como amadurecer diante de tudo isso?

    1. Estabelecer limites
    Enquanto o filho adulto não começar a definir alguns limites saudáveis, seus pais irão continuar a controlar sua vida. Não estou falando aqui em nutrir raiva por esses pais ou afastá-los definitivamente de suas vidas. De forma alguma. Mesmo porque esses pais talvez estejam repetindo um padrão que a família carrega de geração em geração. Muitas vezes sem nem ter consciência disso. Mas o fato é que esse padrão irá se estender até que alguém limite sua constância. Não compartilhar muitos detalhes de sua vida é um início para se chegar à independência e para que tais assuntos não sejam usados como combustível para essa relação de superproteção.

    2. Ser assertivo educadamente
    Quando sua mãe disser que não é assim que se faz uma coisa e que o modo certo é como ela faz, simplesmente diga em tom respeitoso e firme que você mesmo tem sua maneira de fazer suas coisas e que nem ela nem você estão errados.
    Outras sugestões são:
    “Obrigado pela ajuda, mas eu consigo fazer do meu jeito.”
    “Entendo que esta é a sua opinião, mas penso diferente.”
    “Essa é a minha decisão e irei arcar com as consequências, caso elas surjam.”

    3. Ausentar-se
    Se nenhuma dessas alternativas anteriores funcionarem, talvez você possa apenas ausentar-se do conflito. Algumas vezes um pai ou uma mãe narcisista não admite ser contrariado e estabelecer um canal de comunicação. Apenas continuarão insistindo que estão certos. Ok. Eles podem fazer isso. Mas não quer dizer que você esteja obrigado a aceitar essa dinâmica. Portanto, caso a situação permaneça tão limitada e tóxica assim para sua saúde física e mental, talvez uma saída seja perguntar-se se está valendo a pena essa proximidade atual.

    E se, mesmo assim, for difícil?

    É muito comum que os próprios filhos minimizem a situação ou prefiram manter-se na condição de filhos adultos infantilizados. E isso pode se justificar pelo fato de eles também obterem ganhos nessa dinâmica de relacionamento com os pais.

    São aqueles filhos adultos que recebem dinheiro emprestado dos pais constantemente; aqueles que preferem usar seu tempo e dinheiro com outras atividades mais divertidas do que cozinhando a própria refeição ou lavando a própria roupa suja; aqueles que preferem responsabilizar os pais pelas decisões do que correrem o risco de tomarem decisões erradas; aqueles que se beneficiam de viagens ou presentes pagos pelos pais…

    Se você se enxerga nessa dinâmica perante seus pais ou em seus outros relacionamentos, sugiro que procure alguma ajuda terapêutica.

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