• Você vive ou já viveu um relacionamento de codependência?
    Por Alenne Namba

     

    Relações de codependência podem existir entre cônjuges, pais e filhos, amigos, colegas de trabalho etc. Portanto, para simplificar, irei usar o termo parceiro ao longo do artigo.

     

    Uma relação de codependência pode ser identificada quando uma pessoa sacrifica suas próprias necessidades para tentar atender às necessidades dos outros. Junto com esse olhar excessivo direcionado ao outro, você também encontrará numa pessoa codependente sentimentos de vergonha, insegurança e baixa autoestima.

    Originalmente este termo era utilizado para descrever a dependência de uma pessoa e relação às drogas e ao álcool, entretanto, hoje, o termo pode ser amplamente utilizado em comportamentos que giram em torno de outra coisa ou pessoa.

    Pessoas com traços de codependentes tendem a absorver os problemas alheios e tentam ajudar e/ou cuidar do parceiro na tentativa de mudá-lo, salvá-lo ou corrigi-lo.

    Muitos codependentes acabam por escolher parceiros que experimentam problemas com álcool, drogas, sexo, jogos, comportamentos compulsivos ou obsessivos, e egocentrismo. Mas nem sempre os problemas do parceiro são tão pronunciados ou graves. Muitas vezes basta que ele espere de você um cuidado, uma paciência, um sentir-se necessário na vida dele para corrigi-lo, salvá-lo, ajudá-lo. Como se ele não fosse capaz de fazer por si só, e sim como se você fosse responsável pelas questões emocionais e mentais dele.

    Geralmente, neste tipo de relação você sente que o problema está no outro e não em você. O parceiro é que precisa de ajuda e não você. E, muito frequentemente, você espera e tenta que o outro busque essa ajuda em terapia ou afins. Como resultado desse esforço constante em salvar o parceiro, você tenta provar que é boa o suficiente para direcioná-lo.

    Entretanto, você também teme falhar e não ser boa o suficiente, assim como teme ser rejeitado e abandonado pelo seu parceiro. Por conta disso, você tolera todos os abusos que este relacionamento traz e luta para que ele não tenha fim. Afinal, na sua cabeça, você é o responsável por este relacionamento dar certo. E se ele não der certo, você acreditará que quem falhou foi você.

    Se você se identificar com alguns dos traços que listarei abaixo, vale a pena encará-los. Do contrário, é bem provável que continuará repetindo esse padrão de codependência em seus relacionamentos futuros, pois a raiz desse comportamento é profunda e falam muito sobre como você se relaciona consigo mesmo. Essa dinâmica irá se repetir até que você busque encará-la e equilibrar o cuidado com o outro e consigo mesmo.

     

    Numa relação de codependência:

    • Os problemas ou questões do seu parceiro ocupam muito do seu tempo e/ou energia.
    • Você não quer desistir de seu parceiro, pois acredita que ele irá mudar.
    • Você muda a trajetória de sua vida para evitar conflitos com o parceiro.
    • Você gasta mais tempo cuidando ou pensando no seu parceiro do que em si mesmo.
    • Seu humor depende de como seu parceiro está se sentindo.
    • Você se preocupa com o que as pessoas pensam de você.
    • Não importa o quanto você faça, nunca é o suficiente.
    • Você sente que há algo de errado com você e continua tentando provar seu valor.
    • Você tem dificuldades em compreender seus sentimentos. Mas quando consegue, sente-se magoado, chateado, frustrado e até assustado com o que vê.
    • Você gosta de se sentir no controle.
    • Você se esforça muito mais para resolver as questões de seu parceiro, do que ele mesmo.
    • Você constantemente pede desculpas para seu parceiro.
    • As aparências são importantes para você, então você esconde de seus amigos e familiares os problemas que tem passado com seu parceiro.
    • Você se submete às opiniões e desejos de seu parceiro.
    • Você muda sua trajetória para tentar fazer seu parceiro feliz, mas ele não retribui como você gostaria.
    • Você tem medo de que, se não cuidar de seu parceiro, algo ruim possa acontecer.
    • Você se afasta das pessoas que te alertam sobre os problemas do seu relacionamento.
    • Você não quer enxergar os problemas do seu relacionamento.

     

    O que pode causar a codependência?

    Muitas vezes, as origens da codependência estão enraizadas lá na infância. Uma criança que é constantemente chamada a satisfazer as necessidades dos outros vai aprender a negligenciar as suas próprias necessidades e pode tornar-se viciado, em certo sentido, em preencher o papel de salvador do outro.

    Uma pessoa, por exemplo, que cresceu com um pai viciado em drogas ou alcoól, ou que sofreu abuso, negligência emocional, ou a inversão do papel pai-filho (em que se espera que a criança atenda às necessidades físicas ou emocionais do pai ou da mãe, numa situação de insegurança, agressões ou doença, por exemplo) pode desenvolver um comportamento codependente. E esses padrões tendem a se repetir nos relacionamentos adultos.

    Também podemos tomar como exemplo pessoas que sofreram abuso sexual e que podem desenvolver um senso de identidade e satisfação sexual que coloque as necessidades de um parceiro sexualmente manipulador e controlador sempre em primeiro lugar.

    Caso você tenha se reconhecido em pelo menos parte dos comportamentos listados acima, talvez seja a hora de encarar os problemas e fazer algo por você e pelo seu relacionamento de forma saudável. Você pode, inicialmente:

     

    1. Estabelecer uma independência saudável
    Estabelecer um espaço emocional e físico entre você e seu parceiro pode ajudar. Isso não significa separar-se ou ser egoísta, mas sim parar a obsessão perante o parceiro e olhar para seus próprios desejos e escolhas. Você não precisa estar interligado ao outro numa relação para que ela dê certo. O amor é liberdade. A prisão é obsessão.

    Na independência saudável você:

    • Define limites;
    • Não precisa se defender todo o tempo;
    • Tem liberdade para escolher em que conflitos entrar;
    • Busca ficar calmo ao invés de reagir na maior parte do tempo;
    • Leva em consideração seus próprios sentimentos e necessidades;
    • Não permite comportamentos agressivos ou perigosos do parceiro;
    • Conversa com o parceiro ao invés de tentar resolver ou corrigir os problemas dele;
    • Não controla nem critica o tempo todo.

     

    2. Fazer algo saudável por si

    Ao focar menos no parceiro e nos problemas dele, você pode começar a usar sua energia para as suas próprias questões.

    Muitas vezes escolhemos olhar para os problemas dos outros para não termos de encarar nossos próprios problemas e nossas próprias dores. Portanto, a codependência também pode ser uma fuga.

    Ao olhar para si, você terá de encarar seus monstros, mas também encontrará muita beleza escondida aí dentro. Você pode, por exemplo, procurar perdoar-se pelos erros do passado, ou reconciliar-se com seus pais. Você pode olhar para suas próprias necessidades e desejos, que foram se perdendo ao longo do tempo. Você pode usar a energia que usa para controlar tudo, para uma atividade física, para fortalecer suas amizades, para iniciar um hobby, para estudar e trabalhar.

     

    3. Buscar orientação

    Que um dos maiores desafios da vida é se relacionar não é nenhum segredo, principalmente quando o relacionamento é cheio de conflitos. Mas, apesar de ninguém estar isento de relacionamentos conflituosos, ninguém também precisa segurar tudo sozinho nas costas. É possível conseguir ajuda.

    Você pode conversar com amigos ou familiares que passam por problemas semelhantes, você pode buscar grupos de ajuda, você pode buscar terapia. O importante é não se enxergar como um super homem ou uma super mulher, pois você não é. Ninguém é.

     

    Ao buscar ajuda, você pode começar a entender porque costuma se supercompensar ao cumprir as necessidades de todos, exceto suas próprias; entender por que se coloca em último lugar; identificar quais são as suas tendências codependentes e, por fim, desenvolver uma autoestima mais saudável e uma autoconfiança mais elevada para transformar esse padrão e ser capaz de cuidar também de si.

    A mudança é sempre possível quando você cria coragem de olhar para dentro de si. Encarar a realidade, trabalhar a confiança em si mesmo e afastar-se do papel de vítima são atitudes que irão auxiliá-lo a transpor esse obstáculo de sua vida.

     

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