• Reflexões sobre a banalização do mal
    Por Alenne Namba Life Coaching

    Este artigo é fruto de um trabalho feito para meu curso de formação em Psicanálise. Quis compartilhar aqui, porque acredito ser uma reflexão importante para os dias de hoje. Refletir sobre a violência e suas origens faz-nos refletir também sobre nossos comportamentos diários, sobre a forma como nos relacionamos e como aceitamos o que recebemos dos outros. Leia e me dê sua opinião.

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    Toda barbárie é produto da liberdade humana. Como bem disse Hannah Arendt, filósofa política alemã de origem judaica, uma das mais influentes do século XX e que se dedicou a estudar o Holocausto, “o homem privou o outro de seu próprio ser”. Chegamos ao que o homem é capaz de fazer com outro homem.

    Aqueles que sobreviveram aos campos de concentração não sobreviveram de fato, porque já não eram os mesmos, porque foram transformados. O mesmo ocorre com a educação do sujeito quando criança. Ela vai perdendo (ou sendo ensinada a esconder) sua essência. O que ocorreu nos campos foram longos processos de definhamento psicológico e emocional.

    Essa “fabricação da realidade” de que os judeus eram raça inferior, que deveria ser aniquilada, foi compartilhada, vendida e recebida como fato. E isso continua ocorrendo no que diz respeito à realidade compartilhada das religiões, dos padrões de beleza e de riqueza, dos padrões de inteligência e sucesso profissional. Basta uma circunstância para que esse preconceito que está dentro do ser humano seja externalizado. Tomemos como exemplo o preconceito com mulçumanos surgido com força total após o 11 de Setembro. Por isso, que toda barbárie é produto da liberdade humana. Entretanto o que todo indivíduo tem de compreender é que, na hora da verdade, ele tem de ser capaz de pensar, de refletir por si mesmo. É preciso construir desde a infância essa capacidade.

    Essa reflexão só é possível quando nos enxergamos parte do mundo externo. É fato que todo sujeito tem intrinsecamente boa dose de agressividade. Entretanto, ela é amenizada ao longo do desenvolvimento do superego. A partir daí o indivíduo começa a compreender o conceito de bem e de mal. O superego é quem proporciona a civilidade.

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    Entretanto, nem sempre essa estrutura está pronta e algumas pessoas se permitem fazer qualquer coisa. Enquanto nos enxergamos iguais, somos solidários e condescendentes. Mas daqueles sujeitos “estranhos” a nós, acreditamos que precisamos nos defender. Na luta da espécie humana pela vida, os grupos se formam pelos iguais (no que é possível) e a agressividade inata é direcionada aos estranhos do grupo, como bem mostrado no filme O Senhor das Moscas.  Para viver em grupo, controlamos nossa agressividade inata, mas respeitamos os estranhos somente na medida em que eles nos respeitam. Por isso, “o homem é o lobo do próprio homem”.

    E o que é capaz de inibir essa agressividade voltada ao outro? São os limites, as regras sociais, as leis.

    Viver numa sociedade onde impera a impunidade é viver numa sociedade onde se incentiva a agressividade, a perversão. Embora nem toda perversão seja crime, quando ela é relacionada à crueldade podemos chamar de comportamento antissocial. O foco é mais extremo: destruição, desvio, corrupção. Este comportamento tenta impor o desejo do indivíduo ao outro, sem freios.

    Podemos enxergar esse tipo de comportamento nas ações de um bully (quem pratica o bulliyng), de um motorista de ônibus que não para para idosos, num sujeito que espanca homossexuais, numa babá que maltrata a criança, num chefe que assedia o funcionário, no sujeito que se aproveita de uma mulher carente, na mãe que abandona o filho, no pai que troca o fim de semana com o filho por um churrasco com amigos. Esses indivíduos usam o outro apenas como objeto, na ânsia de obter prazer. Não há uma consciência no intuito de relacionar-se. E nessa ânsia pelo prazer buscam controlar tudo e impor aos outros suas ilusões.

    No Brasil, especificamente, a violência em termos de quantidade e qualidade é preocupante. O brasileiro não enxerga esse outro como par para relacionar-se, apenas não se importa com ele, a não ser que obtenha alguma recompensa nessa relação. Pode-se dizer que é uma sociedade perversa.

    As razões que motivam os crimes no nosso país são fúteis. Abandono de crianças e idosos; estupro de crianças, mulheres e doentes mentais; latrocínio; violência doméstica; estelionato; furto; tráfico; corrupção. Esta lista infindável é o casamento entre a falta de limites em casa e a falta de regras sociais verdadeiramente aplicadas. A impunidade fomenta o crime.

    É fato que nem todo criminoso é perverso por natureza. Alguns obedecem a quem acreditam ter autoridade. Esta sim, a autoridade, é perversa e se utiliza da fraqueza do outro para submetê-lo. Por isso é perigoso ensinar às crianças que devem obedecer a qualquer autoridade sem questionamentos. Toda ordem tem de ter propósito, tem de fazer sentido. Mas não é o que aprendemos, tampouco é o que ensinamos a nossos filhos.

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    Uma autoridade perversa encontra um caminho fértil para submeter o outro sem questionamentos, a fim de fortalecer seu poder, formar uma legião de soldados. Isso ocorre no crime organizado, ocorre em religiões e seitas, ocorre nos órgãos públicos, nas empresas privadas, ocorre nas barbáries.

    E o que pode ser feito para compreender essa violência e minimizar seus danos? Um dos caminhos é o autoconhecimento.

    Se eu não me conheço, se nem sei o que desejo, eu permito que o outro deseje por mim. Eu permito que esse outro entre na minha vida e escolha por mim. Permito que ele diga o que tenho de fazer. E eu faço sem questionar.

    Sem o autoconhecimento o indivíduo se torna presa fácil para o egoísta. Este egoísta, que pode estar num papel de autoridade, está disposto a trabalhar conforme, e somente, por seus interesses. Então ele impõe o que eu devo desejar. Esse egoísta pode ser o filho, o marido, a segunda esposa, a mídia, os empresários, a autoridade religiosa.

    Podemos considerar também um outro caminho possível: falar a mesma língua desse agente da violência. É preciso desconstruir os referenciais negativos obtidos no seio familiar, na infância, e construir uma imagem própria positiva, a ponto de caminhar para o resgate do verdadeiro self.

    A empatia é o primeiro passo para que essa relação seja estabelecida. E o que não é a empatia, senão afastar-se de sua realidade subjetiva e tentar adentrar e compreender a realidade subjetiva do outro? Um filme que conseguiu ilustrar com maestria esse processo chama-se A Cela, em que a terapeuta literalmente entra na mente do criminoso para compreender como sua realidade se apresenta.

    Mas o que dizer quando o grande mal da sociedade contemporânea é justamente a falta de empatia?

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    Ouvimos cotidianamente notícias sobre guerras e sofrimento e percebemos aquilo como algo banal, não assimilamos o significado terrível daquilo. Sempre me questionei como o resto do mundo deixou que o Holocausto acontecesse sem que tomasse partido daquele horror. Mas hoje deixamos que outros holocaustos ocorram sem que expressemos o menor sentimento. Quer exemplos? Fome na África, guerra no Oriente Médio, ditaduras ao redor do mundo, roubo de merenda escolar… Apenas continuamos a viver nossas vidas, sobrevivemos à desumanização.

    Que a violência é intrínseca ao ser humano, já compreendemos. Mas ao longo de nosso desenvolvimento é necessário que ela seja controlada, em respeito às relações com o outro. Entretanto, nossa sociedade está fundamentada em valores e práticas que retiram ou minimizam a responsabilidade do sujeito (menores delinquentes, Black-blocks, furadores de fila, consumidores de maconha e de pirataria…) e favorecem a maneira perversa de ser e viver. Esse apelo sobre a liberdade individual a qualquer custo, sobre o egoísmo, desmorona a importância do respeito ao coletivo, ao outro, à relação com o outro, à vida em comunidade, à civilidade.

    E então, qual a sua reflexão sobre a banalização do mal. Compartilhe conosco. O verdadeiro aprendizado está justamente no compartilhamento de ideias e pensamentos.

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