• Gaslighting: como saber se você é uma vítima?
    Por Alenne Namba

    “Ah, eu estava brincando…”
    “O que é isso? Você está de TPM hoje?”
    “Pára, pára, pára, você consegue me tirar do sério!”
    “Nossa, como você é sensível, se dói por qualquer coisa!”
    “Você está ficando louca. Ou então quer me deixar louco!”

    Alguma dessas frases é comum para você?

    Já se sentiu culpada depois de ter reagido a alguma situação que considerava desrespeitosa e acabou se sentindo envergonhada por isso?

    Se você respondeu sim. Pode ter sofrido ou estar sofrendo gaslighting.

    Gaslighting é uma forma maliciosa e extremamente perigosa de abuso psicológico e emocional. O objetivo do manipulador é fazer a vítima duvidar de suas próprias percepções e até mesmo de sua sanidade, plantando dúvida, culpa e incerteza de julgamento.

    Como todo abuso, o gaslighting é usado pela necessidade de manter-se numa posição superior, de controle e poder sobre a vítima. Ou possui o objetivo de ganhar algo direta ou indiretamente. Algumas pessoas podem mentir ou usar a negação para evitar assumir a responsabilidade sobre suas ações. Ou podem esquecer ou lembrar conversas e eventos de forma diferente do que realmente ocorreu, a fim de colocar a situação ao seu favor. Para piorar, os manipuladores também são capazes de agir com muita gentileza, encanto e sedução, principalmente no início de um relacionamento amoroso.

    Infelizmente, este tipo de abuso é muito difícil de ser percebido, pois muitas vezes não suspeitamos que aqueles que amamos sejam capazes de agir assim conosco. Entretanto, é muito comum que em algum momento da sua vida você tenha sido (ou ainda seja) vítima de gaslighting nas suas relações com seus pais, companheiros, parentes, amigos, chefes, colegas de trabalho… E pode conviver com essa relação por anos sem se dar conta dos efeitos que porventura podem surgir.

    O termo gaslighting deriva do filme À Meia Luz (Gaslight – 1944) com Ingrid Bergman e Charles Boyer. Bergman interpreta uma esposa ingênua, chamada Paula, que testemunhou o assassinato de sua tia. Mais tarde, casa-se com Gregory (Boyer) na Itália, e retorna a Londres para morar na casa que herdara da tia, onde ocorrera o assassinato. Paula, lentamente, começa a duvidar de sua sanidade, pois o marido insiste em persuadi-la de que ela está se tornando esquecida e agindo de maneira esquisita. Ele troca objetos de lugar para confundi-la, faz barulhos à noite para assustá-la, limita suas saídas de casa e convence parentes e amigos de que a esposa não está bem. Ao longo de todo o filme, Paula luta para preservar sua identidade em um casamento abusivo, em que é constantemente induzida a acreditar que está doente. Tudo isso para evitar que ela saiba de toda a verdade.

    Não consegui encontrar essa refilmagem, mas assisti o filme original (1940) que vale cada segundo. Você pode clicar aqui para assisti-lo.

    Assim como bem mostra o filme que cunhou o termo gaslighting, trata-se de um tipo de abuso que raramente deixa pistas. Assemelha-se com a Síndrome de Estocolmo, em que a vítima, incapaz de perceber a realidade, torna-se cada vez mais dependente de seu algoz. Dois filmes que tratam desta síndrome e que valem o tempo investido são O Quarto de Jack (2015) e 3096 Dias (2012).

     

    Como funciona o Gaslighting?

    Se você cresceu sendo manipulado ou convivendo com relações de manipulação, é mais difícil discernir o que está acontecendo, porque, para você, soa familiar. Você pode até sentir um certo desconforto ou raiva, mas aparentemente o manipulador pode usar táticas que sugiram que está até lhe ajudando. Assim como no filme, ele pode usar palavras agradáveis e carinhosas, demonstrar preocupação e cuidado, e isso faz com que você tenha dúvidas sobre o que ouve e o que sente. Algo não encaixa, mas você não pode ter certeza e acaba deixando passar.

    É possível que pais manipulem o filho a fazer o que eles acham certo, sugerindo com gentileza e até com um tom de preocupação e zelo. Entretanto, não estão abertos a discutir as ideias do próprio filho, nem a capacidade dele de encontrar as próprias soluções, mesmo que diferentes da dos pais.

    E há também aqueles pais que manipulam mais abertamente entre si, como casal; e entre eles e os filhos. E isso se torna um lugar comum para uma futura vítima de gaslighting. Assista A Fita Branca e entenda como este abuso pode ocorrer numa “boa” intenção de educar os filhos.

    Para continuar a jogar com o seu psicológico, o abusador pode oferecer provas de que você está errado ou questionar sua memória ou suas dúvidas. Justificativas e explicações são usadas para confundir a vítima e afastar suspeitas. Temporariamente você fica tranquila, mas com o passar do tempo voltam as incertezas e você fica cada vez mais confusa sobre suas próprias percepções. Em alguns casos, as vítimas realmente acreditam que estão ficando loucas.

    Outro comportamento comum do manipulador é agir com agressividade, mesmo que não parta para a agressão física. Grita, agita-se, indigna-se, joga contra a vítima desafiando-a ou questionando-a. Fala que ela é desconfiada, chata, ingrata, muito sensível, que fala demais, idiota, insegura, louca… Intimidações, ameaças e punições também fazem parte do pacote.

    O gaslighting não ocorre, como disse, somente em suas relações pessoais. É bem corriqueiro percebê-lo acontecendo nas relações profissionais. Ali se vê controle, enganação, superioridade, poder. Um colega de trabalho pode, por exemplo, espalhar fofocas sobre um desafeto para poder ocupar seu cargo. Uma colega de trabalho pode, por exemplo, manipular informações entre seu chefe e seus subordinados para que ela seja querida por todos. Um cliente pode, por exemplo, insistir num pedido de desconto que o profissional não tem capacidade para dar. Um vendedor pode, por exemplo, oferecer seu produto forçando o cliente a aceitar a oferta naquele instante sem dar-lhe tempo para pensar, sob pena de não conseguir aquele valor mais tarde.

    No relacionamento amoroso, um namorado pode pedir dinheiro emprestado para a parceira, para que ela pague suas dívidas ou lhe compre coisas. Promete que irá pagar, mas está sempre endividado. E o ciclo nunca se rompe. Ele faz charme, mostra-se um companheiro super carinhoso e sexualmente competente. Também age como uma vítima de todos e diz que a única pessoa que o acolhe e com quem pode contar é com você. Confrontá-lo traria uma culpa enorme.

    Uma esposa pode, por exemplo, minar a autoestima do marido atacando sua masculinidade, sua falta de dinheiro ou sua inércia. Um marido pode prejudicar a autoconfiança da esposa, criticando seu corpo, sua aparência ou sua competência como mãe ou profissional.

    Outra estratégia muito utilizada é afastar a vítima de familiares e amigos, para que ela não questione e ele obtenha mais controle sobre a relação.

    Costuma usar a culpa dizendo direta ou indiretamente frases como: “Você é uma ingrata, depois de tudo o que fiz por você”. Ou pode fazer-se de vítima: “Eu sou um lixo mesmo. Nada do que faço lhe agrada…”

    Negam promessas e acordos o tempo todo, alegando esquecimento ou simplesmente negando diretamente ou fugindo das argumentações. E culpam a vítima ao final dizendo que está deixando-o louco ou que ela está ficando louca.

    A chantagem emocional também é um tipo de manipulação que pode incluir o uso de raiva, intimidação, ameaças, vergonha ou culpa. Ela pode até vir em forma de elogio: “Me surpreende você, que é tão inteligente, agir assim…” ou “Não acredito que você está me cobrando esse dinheiro. Depois vem dizer que não é dinheirista”.

    Também são clássicas as frases: “Na sua idade e com filhos você não vai encontrar outra pessoa. É melhor nem pensar em se divorciar de mim, senão vai ficar sozinha” ou se fazer de vítima com “Se você se separar, eu vou morrer”.

    Eu sei que trouxe exemplos demais aqui, mas o objetivo é que você se identifique com algum deles, caso esteja sendo vítima de um relacionamento abusivo. E, identificando-se, procure ajuda.

     

    Quando a verdade aparece

    O amor, a dependência e o apego são fortes incentivos para que a vítima continue acreditando nas mentiras e na manipulação. Ela nega a situação para os outros e para si mesma, pois prefere acreditar na própria fantasia que na realidade. Esta, muitas vezes, pode provocar uma ruptura muito dolorosa. E nem todos estão dispostos a lidar com essa dor. Embora muitas dores sejam também libertadoras…

    Também é bastante comum que a negação continue ocorrendo mesmo após a verdade surgir. Às vezes é preciso tempo para integrar todos os fatos e sentimentos de toda a experiência vivida, pois a realidade pode ser bastante confusa. Se você foi uma criança que sempre conviveu com manipulações em casa, pode acreditar que elas naturalmente fazem parte das relações de amor.

    Embora não seja comum que o manipulador queira perder essa relação de superioridade, controle e poder sobre o outro, ainda é possível que isto ocorra. Neste caso, quando ambos estão motivados a criar um relacionamento equilibrado e saudável e trabalharem juntos nesta direção, uma terapia de casal pode fortalecer os laços e permitir as pazes com o passado.

     

    Como recuperar-se?

    Espero que este artigo lhe ajude a identificar os padrões de funcionamento do gaslighting. Se você se percebeu aqui, saiba que precisa fortalecer sua autoestima e sentimento de segurança. É essencial que procure ajuda e possa contar com uma rede de amigos e pessoas que possam acolhê-la. Embora a vergonha de se perceber sofrendo gaslighting seja bastante comum, isolar-se só irá piorar o problema.

    Por isso é importante conhecer os padrões e reconhecê-los dentro do seu relacionamento, para que você seja capaz de reagir. Você não conseguirá mudar a outra pessoa. Essa é uma ilusão tão corriqueira… Você não é a salvadora de ninguém. Quem possui esse poder? Mas tem o poder sim de salvar-se. Se ambos estiverem dispostos, então as chances de mudança aumentam. Mas se o abusador é viciado em controle ou possui algum transtorno de personalidade, então a mudança será bem improvável.

    Para ler mais sobre este assunto, sugiro também a leitura do eBook gratuito Como lidar com um egoísta.

    E, se quiser aprofundar-se mais ainda, sugiro a leitura do livro Como se defender de manipuladores, do professor e psicólogo clínico na França e na Suíça, Yves-Alexandre Thalmann.

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  • Adultos que nunca crescem
    Por Alenne Namba

    Narcisismo é um dos termos mais importantes da Teoria Psicanalítica. E, embora hoje esse termo esteja sendo usado de forma bastante corriqueira, há uma enorme complexidade em sua definição.

    Se por um lado o narcisismo possui um papel fundamental na constituição psíquica do sujeito, uma vez que é importante se ter a sensação de que somos amados e valorizados para um desenvolvimento emocional saudável; por outro lado o narcisismo também pode retratar aquele sujeito que nutre um apreço exagerado sobre si mesmo, muitas vezes criando máscaras que disfarçam um profundo sentimento de insegurança.

    Durante a infância a criança acredita firmemente que o mundo gira ao seu redor e muitos pais ratificam essa ideia, fazendo-a acreditar nesta fantasia. Seu desenho é o mais criativo, seu sorriso é o mais belo, suas peripécias são as mais engraçadinhas, suas notas são as melhores. Outros pais, num cenário oposto, desejam esse filho perfeito, cobram essa perfeição, mas por não alcançá-la no filho, criticam e controlam em excesso. Outros pais, ainda, preocupam-se apenas com seus próprios anseios e negligenciam sua relação com os próprios filhos (leia mais aqui  e aqui sobre isso).

    Entretanto, apesar de esta imagem narcísica ser necessária até determinada fase da vida, é de real importância que a criança vá dela se distanciando na medida em que cresce e passa a ter contato com os “nãos” que os pais e a vida lhe impõem. Deparar-se com esses “nãos”, ou seja, com as frustrações da vida, são de extrema importância para um desenvolvimento mental e emocional saudável. A partir daí, a criança passa a entender que, de fato, ela não é o centro do mundo e que não precisa carregar esse fardo. Fardo este pesado demais para qualquer indivíduo carregar. Os perfeccionistas que o digam…

    Essa passagem da fantasia narcísica para a realidade da coexistência com o outro é o que trará como presente para este indivíduo em formação a possibilidade de enxergar os benefícios de se relacionar equilibradamente com um outro ser. Quando essa criança percebe que existe um outro e que existe, principalmente, diferença nesse outro, começa aí a riqueza dos laços sociais.

    Além dele próprio, existe um outro indivíduo que também deseja, que também sofre, que também experimenta, que também cai, que também levanta, que também vive e que também merece ser respeitado. Esse pensar e enxergar o outro como objeto saudável de relacionamento é algo difícil de aceitar e alcançar para um narcisista.

     

    “É que Narciso acha feio o que não é espelho”.
    Caetano Veloso

     

    E quando os pais são narcisistas?

    Pais e mães narcisistas costumam criar filhos que vão se tornar adultos, mas que irão manter uma psique infantil.

    E como isso é possível?

    Há algumas semanas, por exemplo, algumas pacientes mães relataram sua dificuldade em aceitar a escolha da roupa por parte do filho pequeno, afinal o que poderiam pensar as outras mães se sua prole saísse por aí vestida de forma desleixada? Na sua cabeça preocupada com a opinião externa, o ideal seria que elas próprias escolhessem o sapatinho para combinar com a roupa; caso contrário, a culpa pelo traje descoordenado do filho seria de quem? Da mãe!

    Não julgo, pois já fui uma mãe assim.

    Mas é necessário se questionar e refletir as razões que levam você, como pai ou mãe, a agir assim. Qual seria o problema real se seu filho saísse de casa com uma roupa que não combina com o calçado?

    Olhando mais profundamente para a questão, a resposta pode estar no receio de esta mãe ter a própria imagem maculada. E, para que isso não aconteça, ela prefere reprimir as escolhas dessa criança em formação, prefere reprimir seu potencial criativo, suas decisões.

    O fato de a criança poder escolher o que vestir, na maior parte dos casos, apresenta a ela uma grande oportunidade de fazer escolhas e lidar com elas, enriquecendo sua condição de ser humano pensante e optante.

    Outro dia ouvi uma mãe dizer que seu filho não poderia morar em outro país, pois ela sofreria demais com a falta dele. Assim como já ouvi pais decidirem pela carreira do filho, pois não aceitam esta ou aquela profissão.

    Quando os pais não propiciam ao filho possibilidades simples como estas estão abrindo mão de criarem filhos ativos, responsáveis pelas próprias escolhas e pela própria vida, ou seja, indivíduos adultos não só na idade, mas também em sua psique. E essa é uma característica que quase todos os pais narcisistas têm em comum: a necessidade de infantilizar o filho.

    Pais narcísicos costumam fazer a criança se sentir incompetente ou culpada cada vez que ela tenta algo novo. Muitas vezes essa infantilização do filho pelos pais é bastante sutil.

    Quer exemplos?

    – Arrumar o quarto do filho adolescente;
    – Oferecer uma boa mesada para que o filho não tenha de se submeter a trabalhos considerados inferiores pelos pais;
    – Lavar as roupas sujas dos filhos que já moram em suas próprias casas;
    – Preparar a comida para os filhos que já moram em suas próprias casas;
    – Cuidar da organização da casa dos filhos que já moram em suas próprias casas;
    – Reformar a casa dos filhos que já moram em suas próprias casas;
    – Arrumar a mala dos filhos adultos;
    – Ligar rotineiramente para saber se os filhos já alimentaram os netos adequadamente;
    – Ligar para os amigos dos filhos a fim de os convencerem a mudarem de ideia em algum assunto específico.

    Os exemplos são muitos e diversos, a lista aqui poderia ser bem grande, mas não irei me estender mais. O ponto em comum a todos os exemplos é que os pais estão tomando decisões ou agindo no lugar dos filhos. Filhos esses capazes de tomarem suas próprias decisões e agirem em sua plena independência.

    A questão aqui não é fazer melhor ou pior do que os filhos, ter mais experiência ou não. A questão aqui é manter os filhos sem a oportunidade de errar. Os indivíduos precisam errar para aprender. Precisam cair e encontrar dentro de si a capacidade de levantar. E isso só se concretiza quando o sujeito experimenta a vida.

    Esse tipo de comportamento parental segue da infância até a vida adulta do filho, pois um pai narcisista teme a independência do filho. Essa dinâmica possui a aparência de auxílio ao filho, mas no fundo serve para perpetuar esse filho como a extensão do seu ser, como a extensão do seu próprio narcisismo.

     

    Como funciona essa dinâmica?

    Na medida em que o filho vai percebendo essa dinâmica, os pais narcisistas usam a culpa, o controle, o medo, a manipulação e qualquer outra tática para trazerem o filho de volta. É por isso que, para muitos desses pais, a adolescência do filho costuma ser traumatizante. Eles não concebem a possibilidade de ter em sua casa um ser capaz de pensar suas próprias ideias e agir conforme suas próprias decisões. Por isso, muitas vezes, não permitem a liberdade de expressão e costumam controlar a vida deste filho, uma vez que se sentem ameaçados em sua posição.

    Essa infantilização do indivíduo é tão dolorida de se enxergar, que o filho só se dá conta de passar por isso muitos anos à frente, quando já está preso nesse emaranhado relacional com os pais. E a força que essa dinâmica traz consigo dificulta que este filho nade contra a corrente.

    Pacientes filhos de pais narcisistas costumam me pedir para dizer passo a passo o que devem fazer quando passam por conflitos em suas vidas. É como seu eu pudesse guiá-los pela mão, ocupando o lugar desses pais, substituindo-os.

    Mas o trabalho que tentamos fazer na terapia é justamente não servir de substituto para esse pai controlador e mostrar ao paciente sua capacidade de guiar a própria vida. Afinal agora é um adulto e possui sim a possibilidade de desenvolver a própria habilidade em gerenciar suas decisões e o resultado delas. Ele irá cair, mas também poderá se levantar.

    Um dos grandes temores que vejo em pacientes assim é o medo de errar. Eles acreditam que, ao errar, estarão dando razão aos pais, pois desde pequenos ouvem a célebre frase: “faça do jeito que estou lhe ensinando, pois se você fizer diferente, a culpa será toda sua.”

    Outras maneiras sutis de impedir o amadurecimento do filho podem ser:

     Reprovação
    Às vezes o olhar reprovador de um pai pode ser pior do que uma surra. Esse olhar pode desencorajar uma atitude do filho ou uma discordância de ideias ou uma escolha diferente, seja no estilo de se vestir ou no estilo de vida. Qualquer decisão que o filho tome deve primeiro passar pela aprovação desses pais. É preciso, de antemão, consultá-los, pois se algo der errado, a culpa será toda do filho. Isso reforça a crença de que o filho permanece incapaz de tomar suas próprias decisões.

     Interferência
    Muitos pais narcisistas acreditam que têm o direito de interferir na vida privada de seus filhos adultos. Isso é bem corriqueiro em consultório. Pais que procuram o analista do filho às escondidas para tratarem sobre assuntos particulares dos filhos; pais que exigem reformar a casa dos filhos, pois não confiam no bom gosto deles; pais que assumem a responsabilidade do cardápio da casa dos filhos casados; pais que escolhem as roupas que os filhos podem usar; pais que organizam a viagem dos filhos. Estou aqui falando de filhos adultos… Em ocasiões extremas podemos nos deparar com pais que sabotam deliberadamente a vida amorosa dos filhos. Novamente a fim de não perderem seu lugar privilegiado.

     Críticas excessivas
    Críticas excessivas destroem a autoconfiança do filho. Muitas mães narcisistas fazer isso com suas filhas sob o disfarce de serem “úteis”. Comentários prejudiciais sobre o seu peso, suas roupas, a escolha da profissão ou do namorado, a capacidade de ser uma boa mãe para seus netos, a falta de organização na casa da filha. Essas e outras formas de críticas servem para mostrar que o pai sabe fazer melhor. Sempre. E que têm a razão. Sempre. E os filhos crescem acreditando que, se os pais estão sempre certos, então quem são eles para desafiarem essa máxima?

    Não me surpreende que filhos de pais narcisistas, quando crescem carregam um pavor enorme de se tornarem adultos. Temem ser responsáveis por suas escolhas. São aqueles adultos que não saem da casa dos pais, que não decolam em suas carreiras, que se separam e voltam para a casa dos pais, que só tomam decisões financeiras após consultarem os pais, que almoçam diariamente na casa dos pais (mesmo tendo suas próprias casas e sendo financeiramente capazes de pagarem sua própria refeição), e por aí vai.

     

    Como amadurecer diante de tudo isso?

    1. Estabelecer limites
    Enquanto o filho adulto não começar a definir alguns limites saudáveis, seus pais irão continuar a controlar sua vida. Não estou falando aqui em nutrir raiva por esses pais ou afastá-los definitivamente de suas vidas. De forma alguma. Mesmo porque esses pais talvez estejam repetindo um padrão que a família carrega de geração em geração. Muitas vezes sem nem ter consciência disso. Mas o fato é que esse padrão irá se estender até que alguém limite sua constância. Não compartilhar muitos detalhes de sua vida é um início para se chegar à independência e para que tais assuntos não sejam usados como combustível para essa relação de superproteção.

    2. Ser assertivo educadamente
    Quando sua mãe disser que não é assim que se faz uma coisa e que o modo certo é como ela faz, simplesmente diga em tom respeitoso e firme que você mesmo tem sua maneira de fazer suas coisas e que nem ela nem você estão errados.
    Outras sugestões são:
    “Obrigado pela ajuda, mas eu consigo fazer do meu jeito.”
    “Entendo que esta é a sua opinião, mas penso diferente.”
    “Essa é a minha decisão e irei arcar com as consequências, caso elas surjam.”

    3. Ausentar-se
    Se nenhuma dessas alternativas anteriores funcionarem, talvez você possa apenas ausentar-se do conflito. Algumas vezes um pai ou uma mãe narcisista não admite ser contrariado e estabelecer um canal de comunicação. Apenas continuarão insistindo que estão certos. Ok. Eles podem fazer isso. Mas não quer dizer que você esteja obrigado a aceitar essa dinâmica. Portanto, caso a situação permaneça tão limitada e tóxica assim para sua saúde física e mental, talvez uma saída seja perguntar-se se está valendo a pena essa proximidade atual.

    E se, mesmo assim, for difícil?

    É muito comum que os próprios filhos minimizem a situação ou prefiram manter-se na condição de filhos adultos infantilizados. E isso pode se justificar pelo fato de eles também obterem ganhos nessa dinâmica de relacionamento com os pais.

    São aqueles filhos adultos que recebem dinheiro emprestado dos pais constantemente; aqueles que preferem usar seu tempo e dinheiro com outras atividades mais divertidas do que cozinhando a própria refeição ou lavando a própria roupa suja; aqueles que preferem responsabilizar os pais pelas decisões do que correrem o risco de tomarem decisões erradas; aqueles que se beneficiam de viagens ou presentes pagos pelos pais…

    Se você se enxerga nessa dinâmica perante seus pais ou em seus outros relacionamentos, sugiro que procure alguma ajuda terapêutica.

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  • O que NÃO aconteceu na sua infância?
    Por Alenne Namba

     

    Você já ouviu falar em Negligência Emocional?

    O pediatra e psicanalista Donald Winnicott nos apresentou aqui a importância da figura da mãe suficientemente boa para que o filho possa atingir um desenvolvimento emocional saudável. E a negligência emocional tem tudo a ver com essa ideia winnicottiana.

    Podemos dizer que a negligência emocional é o fracasso dos pais em responder o suficiente às necessidades emocionais do filho.

    Em outras palavras, negligência emocional é algo que não aconteceu em sua infância.

    Para que você entenda por que a negligência emocional é tão sutil e quase imperceptível, vamos fazer uma experiência.

    Primeiro, eu gostaria que você pensasse em um acontecimento no seu dia de ontem. Pode ser qualquer coisa, grande ou pequena. Apenas pense em algo que aconteceu.

    Em seguida, pense em algo que não aconteceu ontem.

    É bem provável que este segundo pensamento tenha sido bem mais difícil de realizar do que o primeiro. E isso se dá porque os acontecimentos do nosso dia a dia são registrados como memórias, enquanto as coisas que não aconteceram passam despercebidas, invisíveis, quase não lembradas. Como se fossem uma poeira sem forma na nossa mente.

    Não é de hoje que temos consciência do fato de que o que nos acontece na infância apresenta um efeito tremendo sobre o adulto que nos tornamos. Mas o oposto também é verdade. Aquilo que não acontece para nós na infância tem um efeito igual ou até maior.

    Como expliquei lá no início, a negligência emocional é o fracasso de um pai ou mãe para responder o suficiente às necessidades emocionais da criança. Não é um pai que age negativamente, mas um pai que se omite. E isso pode ocorrer de várias formas, podendo se dar de modo tão sutil, que a família inteira pode estar presente quando aquele evento não está acontecendo e, mesmo assim, todos estarem totalmente inconscientes ao fato.

    Quer um exemplo?

    Suponhamos que Joãozinho venha sofrendo bullying na escola. E que hoje tenha sido um dia daqueles para ele. Ele chega em casa se sentindo bem triste, mas seus pais não notam. Nem seu pai nem sua mãe se aproximam dele para perguntar se ele está bem ou se aconteceu algo na escola ou no seu dia. Os irmãos também não se atentam aos sentimentos do Joãozinho. Estão todos envolvidos em sua rotina diária.

    Isso provavelmente é o que costuma acontecer diariamente nas casas no mundo afora. Ou seja, parece algo bem comum.

    Se é algo bem comum e se acontece com boa parte das crianças por aí, então como isso poderia danificar uma criança, deixando cicatrizes que permanecem em sua idade adulta?

    A resposta está nas necessidades naturais e de desenvolvimento das crianças. Para que uma criança cresça com um sentido completo de si mesmo, de quem ela é, e do que ela é capaz, ela tem de ter bastante consciência, compreensão e aceitação de suas emoções provenientes de seus pais. Se há uma falta dos pais em qualquer uma dessas áreas, a criança vai crescer sentindo-se incompleta e com um déficit de algumas das habilidades, como autoconhecimento e autocuidado. E acredito que não seja surpresa para ninguém de que tudo isso é essencial para que a criança se desenvolva de modo pleno e saudável.

    Vamos voltar à história do Joãozinho. Ele veio para casa se sentindo triste naquele dia. Se isso acontecer ocasionalmente, pode ser que não haja aí muito problema. Mas se for sentido com profundidade e frequência, então se acende uma luzinha de alerta. Não poderemos considerar apenas um sentimento de tristeza, mas junto dela estão outros muito importantes: Joãozinho pode também estar sentindo que não é notado, respeitado, importante para seus pais e para sua família como um todo. Joãozinho poderá crescer com esse vazio emocional e acreditar que seus sentimentos são irrelevantes, ou até mesmo vergonhosos ou inaceitáveis.

    Em consultório, vejo repetidas vezes essas falhas sutis dos pais e que marcaram profundamente a infância de meus pacientes. São indivíduos com seus 20, 30, 40 ou 50 anos tentando lidar com as consequências dessa falta, desse buraco aberto. O paciente cresce com um sentimento de incompletude, vazio, insatisfação, frustração e, muitas vezes, questionando seu próprio valor. E isso não é exceção, mas sim a regra.

    E como a negligencia emocional é sutil, fica muito mais difícil trabalha-la quando o adulto emocionalmente negligenciado volta em suas memórias da infância e justifica seus sentimentos ou a atitude dos pais. É muito comum ouvir pacientes dizerem que tiveram pais maravilhosos, uma infância maravilhosa, que nunca foram maltratados ou abusados nem física nem emocionalmente, que seus pais os amavam, que trabalharam muito para criá-los. Dizem que se estão se sentindo tristes ou deprimidos, a culpa é somente deles próprios.

    Essas pessoas simplesmente não conseguem se lembrar do que não aconteceu em sua infância. Assim como não admitem as falhas dos pais quando elas são trazidas à tona. Então, como adultos, eles se culpam por tudo o que está errado em suas vidas. Como não se lembram do que não aconteceu ou justificam a falta dos pais, então dificilmente estes pacientes conseguem enxergar o que está por trás de suas angústias para superá-las.

    Além da culpa que carregam por anos a fio, outro aspecto preocupante da negligência emocional é sua continuação de geração em geração. Crianças emocionalmente negligenciadas crescem com esse ponto cego, ou seja, geralmente não conseguem elaborar suas emoções tampouco as dos outros. E, assim, quando se tornam pais, acabam por também não estarem conscientes das emoções de seus próprios filhos. No final, esses filhos crescerão com o mesmo ponto cego de seus pais, carregando tal comportamento de geração em geração.

    Leia aqui O que está por trás do jogo Baleia Azul

    Em tempos de receio e medo de que seus filhos sejam vítimas de jogos como o atual Baleia Azul, meu objetivo com este artigo é tornar os pais mais conscientes desse aspecto sutil, mas poderoso da relação com seus filhos. Enxergar a criança e suas fragilidades e angústias é dar-lhe a oportunidade de elaborá-los, de tornar visível o invisível, de nomear o desconhecido e, principalmente, de corrigir possíveis falhas. Afinal, os pais falham, pois são seres humanos comuns e não heróis ou os donos da verdade, como muitos costumam pensar.

     

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