• Gaslighting: como saber se você é uma vítima?
    Por Alenne Namba

    “Ah, eu estava brincando…”
    “O que é isso? Você está de TPM hoje?”
    “Pára, pára, pára, você consegue me tirar do sério!”
    “Nossa, como você é sensível, se dói por qualquer coisa!”
    “Você está ficando louca. Ou então quer me deixar louco!”

    Alguma dessas frases é comum para você?

    Já se sentiu culpada depois de ter reagido a alguma situação que considerava desrespeitosa e acabou se sentindo envergonhada por isso?

    Se você respondeu sim. Pode ter sofrido ou estar sofrendo gaslighting.

    Gaslighting é uma forma maliciosa e extremamente perigosa de abuso psicológico e emocional. O objetivo do manipulador é fazer a vítima duvidar de suas próprias percepções e até mesmo de sua sanidade, plantando dúvida, culpa e incerteza de julgamento.

    Como todo abuso, o gaslighting é usado pela necessidade de manter-se numa posição superior, de controle e poder sobre a vítima. Ou possui o objetivo de ganhar algo direta ou indiretamente. Algumas pessoas podem mentir ou usar a negação para evitar assumir a responsabilidade sobre suas ações. Ou podem esquecer ou lembrar conversas e eventos de forma diferente do que realmente ocorreu, a fim de colocar a situação ao seu favor. Para piorar, os manipuladores também são capazes de agir com muita gentileza, encanto e sedução, principalmente no início de um relacionamento amoroso.

    Infelizmente, este tipo de abuso é muito difícil de ser percebido, pois muitas vezes não suspeitamos que aqueles que amamos sejam capazes de agir assim conosco. Entretanto, é muito comum que em algum momento da sua vida você tenha sido (ou ainda seja) vítima de gaslighting nas suas relações com seus pais, companheiros, parentes, amigos, chefes, colegas de trabalho… E pode conviver com essa relação por anos sem se dar conta dos efeitos que porventura podem surgir.

    O termo gaslighting deriva do filme À Meia Luz (Gaslight – 1944) com Ingrid Bergman e Charles Boyer. Bergman interpreta uma esposa ingênua, chamada Paula, que testemunhou o assassinato de sua tia. Mais tarde, casa-se com Gregory (Boyer) na Itália, e retorna a Londres para morar na casa que herdara da tia, onde ocorrera o assassinato. Paula, lentamente, começa a duvidar de sua sanidade, pois o marido insiste em persuadi-la de que ela está se tornando esquecida e agindo de maneira esquisita. Ele troca objetos de lugar para confundi-la, faz barulhos à noite para assustá-la, limita suas saídas de casa e convence parentes e amigos de que a esposa não está bem. Ao longo de todo o filme, Paula luta para preservar sua identidade em um casamento abusivo, em que é constantemente induzida a acreditar que está doente. Tudo isso para evitar que ela saiba de toda a verdade.

    Não consegui encontrar essa refilmagem, mas assisti o filme original (1940) que vale cada segundo. Você pode clicar aqui para assisti-lo.

    Assim como bem mostra o filme que cunhou o termo gaslighting, trata-se de um tipo de abuso que raramente deixa pistas. Assemelha-se com a Síndrome de Estocolmo, em que a vítima, incapaz de perceber a realidade, torna-se cada vez mais dependente de seu algoz. Dois filmes que tratam desta síndrome e que valem o tempo investido são O Quarto de Jack (2015) e 3096 Dias (2012).

     

    Como funciona o Gaslighting?

    Se você cresceu sendo manipulado ou convivendo com relações de manipulação, é mais difícil discernir o que está acontecendo, porque, para você, soa familiar. Você pode até sentir um certo desconforto ou raiva, mas aparentemente o manipulador pode usar táticas que sugiram que está até lhe ajudando. Assim como no filme, ele pode usar palavras agradáveis e carinhosas, demonstrar preocupação e cuidado, e isso faz com que você tenha dúvidas sobre o que ouve e o que sente. Algo não encaixa, mas você não pode ter certeza e acaba deixando passar.

    É possível que pais manipulem o filho a fazer o que eles acham certo, sugerindo com gentileza e até com um tom de preocupação e zelo. Entretanto, não estão abertos a discutir as ideias do próprio filho, nem a capacidade dele de encontrar as próprias soluções, mesmo que diferentes da dos pais.

    E há também aqueles pais que manipulam mais abertamente entre si, como casal; e entre eles e os filhos. E isso se torna um lugar comum para uma futura vítima de gaslighting. Assista A Fita Branca e entenda como este abuso pode ocorrer numa “boa” intenção de educar os filhos.

    Para continuar a jogar com o seu psicológico, o abusador pode oferecer provas de que você está errado ou questionar sua memória ou suas dúvidas. Justificativas e explicações são usadas para confundir a vítima e afastar suspeitas. Temporariamente você fica tranquila, mas com o passar do tempo voltam as incertezas e você fica cada vez mais confusa sobre suas próprias percepções. Em alguns casos, as vítimas realmente acreditam que estão ficando loucas.

    Outro comportamento comum do manipulador é agir com agressividade, mesmo que não parta para a agressão física. Grita, agita-se, indigna-se, joga contra a vítima desafiando-a ou questionando-a. Fala que ela é desconfiada, chata, ingrata, muito sensível, que fala demais, idiota, insegura, louca… Intimidações, ameaças e punições também fazem parte do pacote.

    O gaslighting não ocorre, como disse, somente em suas relações pessoais. É bem corriqueiro percebê-lo acontecendo nas relações profissionais. Ali se vê controle, enganação, superioridade, poder. Um colega de trabalho pode, por exemplo, espalhar fofocas sobre um desafeto para poder ocupar seu cargo. Uma colega de trabalho pode, por exemplo, manipular informações entre seu chefe e seus subordinados para que ela seja querida por todos. Um cliente pode, por exemplo, insistir num pedido de desconto que o profissional não tem capacidade para dar. Um vendedor pode, por exemplo, oferecer seu produto forçando o cliente a aceitar a oferta naquele instante sem dar-lhe tempo para pensar, sob pena de não conseguir aquele valor mais tarde.

    No relacionamento amoroso, um namorado pode pedir dinheiro emprestado para a parceira, para que ela pague suas dívidas ou lhe compre coisas. Promete que irá pagar, mas está sempre endividado. E o ciclo nunca se rompe. Ele faz charme, mostra-se um companheiro super carinhoso e sexualmente competente. Também age como uma vítima de todos e diz que a única pessoa que o acolhe e com quem pode contar é com você. Confrontá-lo traria uma culpa enorme.

    Uma esposa pode, por exemplo, minar a autoestima do marido atacando sua masculinidade, sua falta de dinheiro ou sua inércia. Um marido pode prejudicar a autoconfiança da esposa, criticando seu corpo, sua aparência ou sua competência como mãe ou profissional.

    Outra estratégia muito utilizada é afastar a vítima de familiares e amigos, para que ela não questione e ele obtenha mais controle sobre a relação.

    Costuma usar a culpa dizendo direta ou indiretamente frases como: “Você é uma ingrata, depois de tudo o que fiz por você”. Ou pode fazer-se de vítima: “Eu sou um lixo mesmo. Nada do que faço lhe agrada…”

    Negam promessas e acordos o tempo todo, alegando esquecimento ou simplesmente negando diretamente ou fugindo das argumentações. E culpam a vítima ao final dizendo que está deixando-o louco ou que ela está ficando louca.

    A chantagem emocional também é um tipo de manipulação que pode incluir o uso de raiva, intimidação, ameaças, vergonha ou culpa. Ela pode até vir em forma de elogio: “Me surpreende você, que é tão inteligente, agir assim…” ou “Não acredito que você está me cobrando esse dinheiro. Depois vem dizer que não é dinheirista”.

    Também são clássicas as frases: “Na sua idade e com filhos você não vai encontrar outra pessoa. É melhor nem pensar em se divorciar de mim, senão vai ficar sozinha” ou se fazer de vítima com “Se você se separar, eu vou morrer”.

    Eu sei que trouxe exemplos demais aqui, mas o objetivo é que você se identifique com algum deles, caso esteja sendo vítima de um relacionamento abusivo. E, identificando-se, procure ajuda.

     

    Quando a verdade aparece

    O amor, a dependência e o apego são fortes incentivos para que a vítima continue acreditando nas mentiras e na manipulação. Ela nega a situação para os outros e para si mesma, pois prefere acreditar na própria fantasia que na realidade. Esta, muitas vezes, pode provocar uma ruptura muito dolorosa. E nem todos estão dispostos a lidar com essa dor. Embora muitas dores sejam também libertadoras…

    Também é bastante comum que a negação continue ocorrendo mesmo após a verdade surgir. Às vezes é preciso tempo para integrar todos os fatos e sentimentos de toda a experiência vivida, pois a realidade pode ser bastante confusa. Se você foi uma criança que sempre conviveu com manipulações em casa, pode acreditar que elas naturalmente fazem parte das relações de amor.

    Embora não seja comum que o manipulador queira perder essa relação de superioridade, controle e poder sobre o outro, ainda é possível que isto ocorra. Neste caso, quando ambos estão motivados a criar um relacionamento equilibrado e saudável e trabalharem juntos nesta direção, uma terapia de casal pode fortalecer os laços e permitir as pazes com o passado.

     

    Como recuperar-se?

    Espero que este artigo lhe ajude a identificar os padrões de funcionamento do gaslighting. Se você se percebeu aqui, saiba que precisa fortalecer sua autoestima e sentimento de segurança. É essencial que procure ajuda e possa contar com uma rede de amigos e pessoas que possam acolhê-la. Embora a vergonha de se perceber sofrendo gaslighting seja bastante comum, isolar-se só irá piorar o problema.

    Por isso é importante conhecer os padrões e reconhecê-los dentro do seu relacionamento, para que você seja capaz de reagir. Você não conseguirá mudar a outra pessoa. Essa é uma ilusão tão corriqueira… Você não é a salvadora de ninguém. Quem possui esse poder? Mas tem o poder sim de salvar-se. Se ambos estiverem dispostos, então as chances de mudança aumentam. Mas se o abusador é viciado em controle ou possui algum transtorno de personalidade, então a mudança será bem improvável.

    Para ler mais sobre este assunto, sugiro também a leitura do eBook gratuito Como lidar com um egoísta.

    E, se quiser aprofundar-se mais ainda, sugiro a leitura do livro Como se defender de manipuladores, do professor e psicólogo clínico na França e na Suíça, Yves-Alexandre Thalmann.

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  • Todos morrem, mas nem todo mundo vive
    Por Alenne Namba

    Uma vez ouvi uma frase interessante:

    “Fulano morreu aos 20, mas foi enterrado aos 80.”

    Demorei a entender, mas percebi que esta é uma frase muito, muito verdadeira. Em meus anos de atendimento, e em minha própria experiência de vida, quantas vezes percebi uma inércia acontecendo dia após dia, ano após ano. O tempo passa, mas a pessoa está inerte, desconectada de si. Ou seja, o fulano que morreu aos 20 não morreu fisicamente, mas deixou de viver seus sonhos, de viver sua vida, dos 20 aos 80.

    Aqui em Brasília, temos uma piada que diz o seguinte: a pessoa nasce, estuda, forma-se na faculdade, passa num concurso público, casa-se, compra um apartamento na cidade de Águas Claras (para quem não conhece, trata-se de uma cidade em expansão cheia de jovens casais).

    E, é verdade. Essa é a trajetória de muitos jovens por aqui. Mas ela não garante, de forma alguma, um sentimento de felicidade. Ao contrário, é comum o surgimento de questionamentos sobre essa linha quase que fatal para que a pessoa seja considerada bem-sucedida.

    Já ouvi muito:

    “Mas, Alenne, tenho feito tudo certo… Por que não me sinto feliz?”

    Talvez fazer tudo certo lhe traga segurança, mas não necessariamente felicidade. Quem disse que estar seguro é estar feliz?

    Você tem um trabalho estável, com um salário razoável, um teto para lhe proteger, uma boa família, viaja de vez em quando… E quantos sonhos você deixou para trás? De quantas experiências que poderiam ser surpreendentes você abriu mão? Onde foi que você perdeu sua paixão pela vida?

    Eu sei que resolvi abrir o primeiro artigo do ano com um conteúdo um pouco pesado. Mas acredito de verdade que cada início de ano deveria nos encher de esperança. E essa é a ideia aqui. Que este seja o momento de fazer esse tipo de reflexão.

    Quando você voltará a se conectar consigo mesmo? Quando será fiel à sua essência? Quando abandonará a prisão em que se encontra, já que tudo o que faz é esperar o reconhecimento externo?

    Não estou aqui afirmando que devemos viver nossa vida sem nos importarmos com os outros. Está longe disso. Entretanto, muitos se prendem nessa agonia de viver pelos outros, fazendo escolhas que não são as próprias escolhas, mas sim as escolhas de alguém ou as imposições sociais.

    Não sei se já leu sobre uma enfermeira australiana, chamada Bronnie Ware, que pesquisou sobre os maiores arrependimentos de doentes terminais. Olha só os arrependimentos mais comuns relatados em seu blog:

    1. Queria ter aproveitado a vida do meu jeito e não da forma que os outros queriam
    2. Queria não ter trabalhado tanto
    3. Queria ter falado mais sobre meus sentimentos
    4. Não queria ter perdido contato com meus amigos
    5. Queria ter me permitido ser feliz

     

    Você se identificou com algum?

    Pense com carinho sobre isso.

    Estamos no início do ano, essa é uma boa hora para refletir sobre sua caminhada até aqui. Suas escolhas no passado foram importantes, para o bem ou para o mal. Mas para avançar para o futuro, é importante perceber que só se vive no presente.

    Se você vive ansioso, então está com a cabeça no futuro. Se você vive com sentimento de culpa, então está com a cabeça no passado. Mas só se vive de verdade no aqui e agora. O resto é ilusão.

    Sentir a felicidade no aqui e agora é uma questão de autoconhecimento, de compreensão de sua vida. O medo de mudar, a falsa ideia de que está tudo bem quando no fundo você está insatisfeito, tudo isso está transformando você naquele personagem lá do início do artigo: fulano morreu aos 20, mas foi enterrado aos 80.

    Imagino que não seja isso que imagina para si do fundo do seu coração. Resgate-se. Há tempo.

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  • O que pode estar por trás do jogo Baleia Azul
    Por Alenne Namba

     

    Ninguém vai sentir minha falta mesmo…

    Esse é o tipo de sentimento que faz com que adolescentes do mundo todo se envolvam com o jogo Baleia Azul.

    Para quem ainda não conhece do que se trata, aqui vai uma breve explicação:

    O adolescente é convidado, via rede social, a participar de um grupo chamado Blue Whale (baleia azul, em inglês) e uma vez dentro do grupo, é incentivado e pressionado a cumprir uma série de tarefas que passam por automutilação, pendurar-se em locais perigosamente altos e culminam em suicídio.

    Especula-se que o jogo tenha se iniciado na Rússia, mas muitos são os casos sendo investigados pela polícia mundo afora. No Brasil inclusive.

     

    O envolvimento como isca

    A adolescência é um período de crise de identidade, momento em que mente e corpo estão confusos e se adaptando às mudanças hormonais. Além disso, o jovem ainda tem de lidar com a ansiedade da própria adaptação às mudanças de relacionamento com os pais e com a sociedade em geral. Afinal de contas, esse jovem não é mais criança, mas também não é um adulto formado. Então sua interação com a família e a sociedade muda, mas ainda de modo vacilante. Ele não aceita como verdade absoluta, por exemplo, o direcionamento dos pais, como geralmente uma criança aceitaria; tampouco se sente hábil para as responsabilidades que a vida adulta traz consigo. Ou seja, sua psique ainda está em desenvolvimento, ainda está imatura.

    E os mentores de jogos como o Baleia Azul sabem e se aproveitam dessa fragilidade. Eles pressionam, ameaçam e empurram esses adolescentes até o limite de suas inseguranças e fraquezas. Para agravar ainda mais a situação, as tarefas são desenhadas para desestabilizarem o psicológico dos participantes. Uma delas faz com que o jovem ouça repetidamente uma música triste e, é claro, isso mina cada vez mais o pouco sentimento de autovalor que esse jovem possui. Ao final, este indivíduo foi exposto a diversas tarefas que o fazem lembrar diariamente que talvez, em sua percepção, a melhor saída seja se livrar de uma vez por todas desses sentimentos negativos dentro de si.

    Mas jogos como o Baleia Azul, apesar de um real motivo de preocupação, não possuem a capacidade de criar o desejo de morte por si só. E a Internet não é a única alternativa para colocar em andamento esse desejo. Se as coisas estão equilibradas e saudáveis na vida deste jovem e, de repente, ele se envolve com esse tipo de jogo por curiosidade, dificilmente esse conteúdo tomará conta de sua mente.

    Mas se ele não possui ninguém para conversar, se se sente completamente só e sem importância para ninguém, se ele sente essa desconexão consigo próprio e com o mundo, então ele pode se tornar presa fácil.

    Pode parecer paradoxal, mas num ambiente virtual como o do jogo, ele encontra outras pessoas com quem compartilha sentimentos afins e encontra um mentor que lhe dá atenção e importância, mesmo que negativamente. Assemelha-se a uma criança de dois anos que, ao recepcionar a mãe cansada após um dia extenuante de trabalho, faz de tudo para que ela lhe dê atenção, mesmo que negativamente num grito ou numa surra.

     

    Caminhos possíveis

    Ao ler diversos posts e comentários sobre o tema nas redes sociais, fiquei preocupada. Eram pais e mães insistindo que o caminho seria o controle ou a repressão. Alguns deles apontavam a surra como solução para esse comportamento adolescente.

    O que me preocupa é que esses pais estão mais preocupados com os sintomas superficiais do que com o conhecimento da causa que leva seus filhos a agirem assim. Estariam eles se eximindo da responsabilidade de conhecerem os próprios filhos? Estariam eles mais preocupados em maquiar os sintomas perante o olhar alheio? Não sei e talvez nunca obtenha essa resposta…

    O que entendo é que, pela minha experiência, o caminho não é necessariamente controlar ou reprimir o uso de celulares e Internet, ou a surra como solução. Não, nada disso. Tudo isso é superficial e precisamos olhar mais profundamente para a complexidade da questão.

    Controlar e reprimir fará apenas com que o sintoma mude de lugar, mas ele continuará ali vivo. O jovem que tiver seu celular ou a Internet bloqueados não se comunicará nas redes sociais, mas o sentimento dele de vazio e não pertencimento continuará dentro dele. E isso, nem a falta do celular, nem a falta da Internet, nem a surra tirarão milagrosamente de dentro dele.

    O caminho pode estar na participação da família na vida desse filho, em se ter de verdade um canal acessível de comunicação com esse filho, em ouvir de coração aberto esse filho. E quando falo isso em consultório, muitas vezes ouço pais argumentarem o seguinte:

    Mas eu converso com meu filho, eu falo tanto no ouvido dele, eu cobro as tarefas, eu ensino os princípios religiosos ou morais para ele, ele vê nosso exemplo em casa, ele vê que nada foi fácil para nós, que ele tem de lutar e ser forte…

    Não…

    Isso não é comunicação. Isso é doutrinamento, numa via de uma mão só.

    O diálogo que incentivo aqui como caminho nada mais é do que relacionar-se com seu filho. E relacionar-se, como a psicanálise diz, é a cura para muitos dos males do ser humano. E neste caso não é diferente.

    Relacionar-se, conectar-se com o outro, ser e fazer diferença na vida de alguém, tudo isso é uma resposta àquela frase inicial que abre este artigo. Se você se sente importante para alguém e, mais essencial ainda, se você se sente importante para si mesmo, então sua falta fará sim diferença no mundo.

    Relacionar-se com o outro, ouvir e falar, dialogar sobre experiências, sentimentos, decepções e alegrias expande nosso olhar. É através do outro que conhecemos e podemos enxergar de modo diverso tanto o mundo externo quanto o nosso mundo interno. Afinal, muitas vezes o outro percebe algo em nós que nem nós mesmos havíamos percebido!

    Então uma saída saudável para a diminuição de casos tristes como esses é que os pais e as pessoas próximas a essas crianças e adolescentes entendam que são responsáveis por criar e manter esses laços afetivos, uma vez que, como pudemos compreender neste artigo, são jovens ávidos por conexão, pertencimento e atenção.

    Aceitar, sem julgamentos, o filho como ele é, seja ele homossexual, transexual, com dificuldades em matemática ou português, sem o mesmo vigor atlético do pai, sem a destreza organizacional da mãe, tímido, com aspirações profissionais dissonantes às dos pais… Não importa. É seu filho e precisa ser amado.

    Buscar ajuda imediata, caso você perceba um jovem em risco, é fundamental. São vários os meios de auxílio profissional, sejam psicanalistas, psicólogos, psiquiatras ou outros grupos de apoio como o Centro de Valorização da Vida (CVV), que oferece suporte emocional para pessoas com pensamentos suicidas e que precisam conversar de maneira sigilosa. O atendimento funciona 24 horas por dia através do telefone 141.

     

    Principais motivadores

    Os motivos para um adolescente dar corda à curiosidade de participar de um grupo como o Baleia Azul são muito complexos e não tenho a pretensão de elencá-los todos aqui. Mas o que podemos afirmar é que muitos dos motivos estão relacionados à baixa autoestima deste jovem fragilizado:

    – desconexão com um dos pais ou ambos;

    – autoimagem distorcida;

    – sentimento de inadequação, incapacidade ou não pertencimento a um grupo;

    – abuso físico, sexual ou psicológico;

    – sentimento de culpa, vazio e desesperança;

    – necessidade de reviver forte adrenalina, proveniente de um lar cheio de conflitos e em constante ebulição;

    – distúrbios psicológicos, como melancolia, depressão, transtorno bipolar e adições com álcool ou drogas.

     

    Sinais de alerta

    É importante que os pais, familiares e amigos estejam atentos aos principais sinais:

    – isolamento ou afastamento de pessoas antes queridas;

    – mensagens em redes sociais ou em conversas triviais sobre culpa, desespero, morte, suicídio ou falta de esperança;

    – comportamentos autodestrutivos (automutilações, adições ao álcool ou drogas);

    – mudança acentuada de humor e de comportamento (oscilação passivo-agressiva, apetite em excesso ou perda de apetite, sono em excesso ou insônia, perda de interesse em atividades antes prazerosas).

     

    Caso você esteja precisando de suporte emocional ou conheça alguém que necessite, entre em contato clicando aqui.

     

     

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