• O que pode estar por trás do jogo Baleia Azul
    Por Alenne Namba

     

    Ninguém vai sentir minha falta mesmo…

    Esse é o tipo de sentimento que faz com que adolescentes do mundo todo se envolvam com o jogo Baleia Azul.

    Para quem ainda não conhece do que se trata, aqui vai uma breve explicação:

    O adolescente é convidado, via rede social, a participar de um grupo chamado Blue Whale (baleia azul, em inglês) e uma vez dentro do grupo, é incentivado e pressionado a cumprir uma série de tarefas que passam por automutilação, pendurar-se em locais perigosamente altos e culminam em suicídio.

    Especula-se que o jogo tenha se iniciado na Rússia, mas muitos são os casos sendo investigados pela polícia mundo afora. No Brasil inclusive.

     

    O envolvimento como isca

    A adolescência é um período de crise de identidade, momento em que mente e corpo estão confusos e se adaptando às mudanças hormonais. Além disso, o jovem ainda tem de lidar com a ansiedade da própria adaptação às mudanças de relacionamento com os pais e com a sociedade em geral. Afinal de contas, esse jovem não é mais criança, mas também não é um adulto formado. Então sua interação com a família e a sociedade muda, mas ainda de modo vacilante. Ele não aceita como verdade absoluta, por exemplo, o direcionamento dos pais, como geralmente uma criança aceitaria; tampouco se sente hábil para as responsabilidades que a vida adulta traz consigo. Ou seja, sua psique ainda está em desenvolvimento, ainda está imatura.

    E os mentores de jogos como o Baleia Azul sabem e se aproveitam dessa fragilidade. Eles pressionam, ameaçam e empurram esses adolescentes até o limite de suas inseguranças e fraquezas. Para agravar ainda mais a situação, as tarefas são desenhadas para desestabilizarem o psicológico dos participantes. Uma delas faz com que o jovem ouça repetidamente uma música triste e, é claro, isso mina cada vez mais o pouco sentimento de autovalor que esse jovem possui. Ao final, este indivíduo foi exposto a diversas tarefas que o fazem lembrar diariamente que talvez, em sua percepção, a melhor saída seja se livrar de uma vez por todas desses sentimentos negativos dentro de si.

    Mas jogos como o Baleia Azul, apesar de um real motivo de preocupação, não possuem a capacidade de criar o desejo de morte por si só. E a Internet não é a única alternativa para colocar em andamento esse desejo. Se as coisas estão equilibradas e saudáveis na vida deste jovem e, de repente, ele se envolve com esse tipo de jogo por curiosidade, dificilmente esse conteúdo tomará conta de sua mente.

    Mas se ele não possui ninguém para conversar, se se sente completamente só e sem importância para ninguém, se ele sente essa desconexão consigo próprio e com o mundo, então ele pode se tornar presa fácil.

    Pode parecer paradoxal, mas num ambiente virtual como o do jogo, ele encontra outras pessoas com quem compartilha sentimentos afins e encontra um mentor que lhe dá atenção e importância, mesmo que negativamente. Assemelha-se a uma criança de dois anos que, ao recepcionar a mãe cansada após um dia extenuante de trabalho, faz de tudo para que ela lhe dê atenção, mesmo que negativamente num grito ou numa surra.

     

    Caminhos possíveis

    Ao ler diversos posts e comentários sobre o tema nas redes sociais, fiquei preocupada. Eram pais e mães insistindo que o caminho seria o controle ou a repressão. Alguns deles apontavam a surra como solução para esse comportamento adolescente.

    O que me preocupa é que esses pais estão mais preocupados com os sintomas superficiais do que com o conhecimento da causa que leva seus filhos a agirem assim. Estariam eles se eximindo da responsabilidade de conhecerem os próprios filhos? Estariam eles mais preocupados em maquiar os sintomas perante o olhar alheio? Não sei e talvez nunca obtenha essa resposta…

    O que entendo é que, pela minha experiência, o caminho não é necessariamente controlar ou reprimir o uso de celulares e Internet, ou a surra como solução. Não, nada disso. Tudo isso é superficial e precisamos olhar mais profundamente para a complexidade da questão.

    Controlar e reprimir fará apenas com que o sintoma mude de lugar, mas ele continuará ali vivo. O jovem que tiver seu celular ou a Internet bloqueados não se comunicará nas redes sociais, mas o sentimento dele de vazio e não pertencimento continuará dentro dele. E isso, nem a falta do celular, nem a falta da Internet, nem a surra tirarão milagrosamente de dentro dele.

    O caminho pode estar na participação da família na vida desse filho, em se ter de verdade um canal acessível de comunicação com esse filho, em ouvir de coração aberto esse filho. E quando falo isso em consultório, muitas vezes ouço pais argumentarem o seguinte:

    Mas eu converso com meu filho, eu falo tanto no ouvido dele, eu cobro as tarefas, eu ensino os princípios religiosos ou morais para ele, ele vê nosso exemplo em casa, ele vê que nada foi fácil para nós, que ele tem de lutar e ser forte…

    Não…

    Isso não é comunicação. Isso é doutrinamento, numa via de uma mão só.

    O diálogo que incentivo aqui como caminho nada mais é do que relacionar-se com seu filho. E relacionar-se, como a psicanálise diz, é a cura para muitos dos males do ser humano. E neste caso não é diferente.

    Relacionar-se, conectar-se com o outro, ser e fazer diferença na vida de alguém, tudo isso é uma resposta àquela frase inicial que abre este artigo. Se você se sente importante para alguém e, mais essencial ainda, se você se sente importante para si mesmo, então sua falta fará sim diferença no mundo.

    Relacionar-se com o outro, ouvir e falar, dialogar sobre experiências, sentimentos, decepções e alegrias expande nosso olhar. É através do outro que conhecemos e podemos enxergar de modo diverso tanto o mundo externo quanto o nosso mundo interno. Afinal, muitas vezes o outro percebe algo em nós que nem nós mesmos havíamos percebido!

    Então uma saída saudável para a diminuição de casos tristes como esses é que os pais e as pessoas próximas a essas crianças e adolescentes entendam que são responsáveis por criar e manter esses laços afetivos, uma vez que, como pudemos compreender neste artigo, são jovens ávidos por conexão, pertencimento e atenção.

    Aceitar, sem julgamentos, o filho como ele é, seja ele homossexual, transexual, com dificuldades em matemática ou português, sem o mesmo vigor atlético do pai, sem a destreza organizacional da mãe, tímido, com aspirações profissionais dissonantes às dos pais… Não importa. É seu filho e precisa ser amado.

    Buscar ajuda imediata, caso você perceba um jovem em risco, é fundamental. São vários os meios de auxílio profissional, sejam psicanalistas, psicólogos, psiquiatras ou outros grupos de apoio como o Centro de Valorização da Vida (CVV), que oferece suporte emocional para pessoas com pensamentos suicidas e que precisam conversar de maneira sigilosa. O atendimento funciona 24 horas por dia através do telefone 141.

     

    Principais motivadores

    Os motivos para um adolescente dar corda à curiosidade de participar de um grupo como o Baleia Azul são muito complexos e não tenho a pretensão de elencá-los todos aqui. Mas o que podemos afirmar é que muitos dos motivos estão relacionados à baixa autoestima deste jovem fragilizado:

    – desconexão com um dos pais ou ambos;

    – autoimagem distorcida;

    – sentimento de inadequação, incapacidade ou não pertencimento a um grupo;

    – abuso físico, sexual ou psicológico;

    – sentimento de culpa, vazio e desesperança;

    – necessidade de reviver forte adrenalina, proveniente de um lar cheio de conflitos e em constante ebulição;

    – distúrbios psicológicos, como melancolia, depressão, transtorno bipolar e adições com álcool ou drogas.

     

    Sinais de alerta

    É importante que os pais, familiares e amigos estejam atentos aos principais sinais:

    – isolamento ou afastamento de pessoas antes queridas;

    – mensagens em redes sociais ou em conversas triviais sobre culpa, desespero, morte, suicídio ou falta de esperança;

    – comportamentos autodestrutivos (automutilações, adições ao álcool ou drogas);

    – mudança acentuada de humor e de comportamento (oscilação passivo-agressiva, apetite em excesso ou perda de apetite, sono em excesso ou insônia, perda de interesse em atividades antes prazerosas).

     

    Caso você esteja precisando de suporte emocional ou conheça alguém que necessite, entre em contato clicando aqui.

     

     

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