• Você é um bom candidato para vivenciar a Psicanálise?
    Por Alenne Namba

     

    Nestas últimas semanas me deparei com alguns pacientes em dúvida quanto aos resultados do tratamento psicanalítico e ansiosos pelo tempo em que tais resultados comecem a aparecer.

    Quando você inicia qualquer tipo de terapia, sua expectativa é de que os resultados comecem a surgir o mais rápido possível, principalmente nos dias de hoje em que alguns segundos de espera são infinitos quando você clica em qualquer botão.

    Por isso resolvi escrever algumas considerações sobre quem é um bom candidato a participar de um processo psicanalítico, a fim de alinhar expectativa e realidade.

    Iniciemos com uma frase simples: Nem todo mundo é um bom candidato para o tratamento psicanalítico.

    E por quê?

    Alguns pacientes desejam o alívio do sintoma, eles querem se livrar do que está acontecendo agora, seja o sintoma uma ansiedade, uma tristeza, uma insônia, falta de foco, depressão ou qualquer outra manifestação.

    Para esse alívio imediato algumas abordagens da psicologia e a prescrição de medicamentos psiquiátricos podem ser um recurso.

    Nós analistas, no entanto, olhamos para esses sintomas recorrentes como manifestações do inconsciente no corpo. Para a Psicanálise funciona assim: o que não pode ser expresso através da linguagem encontra o seu caminho no organismo na forma de uma queixa física, comportamental ou psicossomática.

    Quando o paciente entra no meu consultório e traz demandas como…

    “Eu não consigo dormir à noite”

    “Não consigo me concentrar”

    “Eu tenho dificuldades de relacionamento com minha mãe “

    “Estou passando por momentos difíceis com meu marido”

    “Estou super ansioso com meu novo emprego”

    “Não sei por que não consigo emagrecer”

    …é preciso que ele entenda que deve estar preparado para fazer um trabalho de autoinvestigação, deve estar preparado para assumir a responsabilidade pelo que está acontecendo em seu corpo e em sua vida, aceitando e principalmente dando voz ao seu inconsciente.

    Ao invés de tentar encontrar uma solução externa para um problema interno, bons pacientes para o tratamento psicanalítico estão dispostos a encontrar as respostas dentro de si, a se responsabilizarem por sua postura perante sua queixa.

    É notório o resultado de um paciente que se entrega ao divã, que traz para o setting seus sonhos, que encara suas feridas mais dolorosas, que usa seus momentos de silêncio para refletir, que dá voz ao seu inconsciente, que reflete sobre as pontuações do analista, que entende que o analista não possui as respostas (mas sim as perguntas), e que busca as respostas dentro de si, responsabilizando-se por sua melhora.

    Assumir a responsabilidade para seu estado psicológico significa que você tem controle sobre ele, e por sua vez significa que você pode mudá-lo se você optar por fazê-lo .

    E o que significa “se você optar por fazê-lo“?

    Porque na Psicanálise entendemos que não necessariamente a pessoa quer, de fato, mudar; ou vai, de fato, mudar. Principalmente porque mudar envolve perdas e nem sempre o paciente está disposto a abrir mão. Além disso, muitas vezes a felicidade dá medo, pois é um caminho desconhecido e, portanto, desconfortável.

    Mais importante do que mudar é fundamental compreender quem você é e o que fazer com isso, como lidar com essa pessoa e com a forma como ela pensa e age.

    Por isso sempre digo na entrevista inicial que não estou aqui para dar conselhos. Um analista não costuma ensinar técnicas ou perseguir um objetivo específico (como num processo de Coaching, por exemplo).

    Nosso objetivo maior é que hoje você esteja se sentindo melhor do que ontem e que amanhã esteja se sentindo melhor do que hoje. E assim por diante.

    Além disso, acontece de mesmo após tomar consciência de um comportamento, o próprio paciente decide que não quer mudá-lo. Ele ganha consciência sobre seus sintomas, suas ações, seus padrões, mas continua no mesmo tom. E ele tem total liberdade para isso.

    Quer um exemplo?

    Uma paciente que toma consciência de que está dentro de um relacionamento abusivo. Ela pode, e tem todo o direito, de optar por continuar dentro desse relacionamento abusivo. Não é o analista que tem de pegar a mão dela e retirá-la à força dali. Ela é dona do próprio desejo. Talvez ela sinta que precisa daquilo e até que gosta daquilo. Por que não?

    Por isso digo que ali no setting não há espaço para julgamento.

    O que ocorre, num caso como esse, por exemplo, é que ao escolher não mudar ela terá de lidar com as consequências de sua escolha, sabendo que seus sintomas (ansiedade, insônia, dores de cabeça, cansaço, pressão) podem continuar presentes uma vez que ela decidiu não mudar a causa do problema. Isso é fazer uma escolha consciente, estando certa ou não para mim ou para você.

    A diferença é que antes era um caminho inconsciente, e agora se torna uma escolha consciente.

    Ocorre também de os sintomas que levaram o paciente a procurar o tratamento desaparecerem quando o indivíduo percebe que não mais “precisa” deles. Digo “precisa” porque na Psicanálise o sintoma é uma forma de mecanismo de enfrentamento, uma estratégia defensiva, uma tática de sobrevivência criados pelo inconsciente como uma solução para um problema que é grande demais, ameaçador demais, doloroso demais para se processar.

    Exemplo: uma paciente que costuma se autoflagelar pode usar esse expediente para sentir no corpo físico a dor psíquica com a qual não consegue lidar. Ela “precisa” doer no corpo para evacuar a dor interna de ter sido psicologicamente abusada, por exemplo, pela própria mãe.

    Então, a resposta que sempre dou nas entrevistas iniciais é a de que a Psicanálise não tem o propósito de curar ninguém, nem que temos a resposta para o tempo que será necessário permanecer em tratamento, nem que tenho as respostas para direcionar o paciente no melhor caminho que ele crê que eu saiba qual é.

    Não, nada disso.

    A resposta da Psicanálise é, portanto, tornar consciente suas dores inconscientes e se sentir preparado para fazer as próprias escolhas. Ou seja, responsabilizar-se pela vida na qual está se encaminhando, lidando com seus erros e acertos e, principalmente, aceitando aquilo que você não pode controlar.

    Saiba mais sobre psicoterapia psicanalítica aqui.

    Para mais artigos sobre problemas comuns que afetam sua vida, inscreva-se para receber por e-mail nossos artigos aqui .

    Leia mais
  • 3 coisas das quais você precisa se libertar para deixar sua vida acontecer
    Por Alenne Namba

    Uma das grandes alegrias da vida é a surpresa, o inesperado. Às vezes pessoas e oportunidades surgem em seu caminho e cabe a você fazer bom uso desse presente. Mas esses momentos inesperados não acontecem todo o tempo em sua vida. Em boa parte do tempo estamos experimentando uma rotina. E essa rotina não precisa ser encarada como algo ruim.

    Para lidar com ambos os momentos e obter o máximo de sua vida, é importante se livrar de alguns pesos e deixar seu caminho fluir com mais liberdade. Escolher e tomar as rédeas de seu próprio caminho, e viver de acordo com seus valores, faz parte dessa experiência.

    Como então aprender a dirigir seu próprio curso?

    Aqui estão 3 coisas das quais você precisa se livrar para guiar o timão do seu navio:

    1. Livre-se da necessidade do amor do outro

    Quando sua felicidade depende da aprovação e do amor de uma outra pessoa, para que você se sinta bem, você está entregando as rédeas da sua vida nas mãos desse outro.

    O poder e a responsabilidade por sua vida deixa de estar em suas mãos. E, na verdade, você está dizendo a si mesmo que o seu amor-próprio e sua capacidade de autoavaliação não são suficientes. E, então eu te pergunto: cadê sua autonomia?

    Quando você se coloca numa posição de dependência de outra pessoa, você coloca nas mãos dela o poder de direcionar seus pensamentos, sua forma de enxergar o mundo, seu relacionamento com outros, seus objetivos de vida.

    Mas a vida é sua, não é desse outro. E a responsabilidade é sua, não do outro. Freud já dizia: “A maioria das pessoas realmente não quer a liberdade, pois liberdade envolve responsabilidade. E a maioria das pessoas tem medo de responsabilidade.

    2. Livre-se de expectativas irreais

    Você é um perfeccionista que espera para si altos padrões? Você se critica por tudo? Você critica o outro por tudo? Você possui sonhos ou fantasias em que magicamente os resultados baterão em sua porta?

    Não há nada de errado em querer melhorar suas habilidades e aprender coisas novas. Não há nada de errado em se esforçar. Não há nada de errado em esperar resultados.

    No entanto, elevar doentiamente os padrões para si ou para os outros é um exemplo de expectativas irreais.

    Quando você se exige demais ou exige demais dos outros, ou quando você espera demais da vida e do destino, você fica à mercê de tudo o que te cerca, menos das possibilidades reais.

    O que acha de tentar apreciar as experiências vividas com mais leveza, com menos cobrança, independentemente de alcançá-las ou não?

    As Olimpíadas estão aí como prova de que tudo passa pela forma como percebemos e lidamos com nossas expectativas e resultados. Alguns atletas saem de cabeça erguida quando perdem. Outros entram em depressão. O que talvez todos precisam ter em mente é que já são vencedores por estarem ali dando o seu melhor.

    3. Livre-se da culpa por tudo que faz de errado

    Todos nós cometemos erros. É um fato simples. Mesmo as pessoas que você admira, as mais competentes do Universo, comentem erros.

    Se você deseja progredir em seu caminho, precisa correr riscos. E, junto com os riscos, vem a possibilidade de falhar. Infelizmente é muito mais fácil pensar sobre o que deu errado, ou sobre o que você poderia ter feito diferente.

    Mas se você quiser deixar sua vida fluir com mais leveza, talvez seja a hora de também refletir sobre o que você pode fazer daqui para a frente com os recursos que possui hoje. Ou seja, olhar para o futuro com uma perspectiva mais positiva sem ficar se culpando por tudo de errado que você fez ou faz.

    Pergunte-se o que você pode aprender com os erros do passado, mas siga adiante, olhe para a frente e confie em si mesmo

    Sei que não é fácil tomar as rédeas da própria vida, e é por isso que muitos de nós estamos presos em velhos padrões de co-dependência, expectativas irreais e culpa inútil. No entanto, tomar uma decisão consciente de viver de uma maneira nova é o primeiro passo para recuperar sua autoestima e sua autoconfiança.

    Aproveite para baixar o eBook gratuito sobre Autoestima.

    Leia mais
  • A Pira Olímpica e a Psicanálise
    Por Alenne Namba

     

    Ao assistir a Abertura das Olímpíadas 2016 ontem à noite, fiquei maravilhada. Embora o país esteja passando por uma crise política vergonhosa, o brasileiro conseguiu transmitir o que possui de melhor: a criatividade.

    E para fechar com chave de ouro, a Pira Olímpica…

    Meu Deus, o que é aquilo?

    Inspiradora!

    Minha cabeça pipocou ontem à noite refletindo no quanto a Pira conseguiu transmitir exatamente a mensagem que a Abertura das Olimpíadas e o Espírito Olímpico quiseram passar: PAZ e ATITUDE.

    E o que tudo isso tem a ver com Psicanálise, você me pergunta.

    E eu respondo: tudo!

    Carl Jung, um psicanalista suíço contemporâneo de Freud, cunhou os termos Anima e Animus para se referir ao feminino e ao masculino dentro de nós, respectivamente. Todos nós, homens e mulheres, possuímos esses arquétipos em nosso psiquismo. Nós não nascemos homens ou mulheres, embora muitos possuam opiniões diferentes sobre o que digo aqui. Segundo a Psicanálise, nós não nascemos, mas nos tornamos homens e mulheres. Somos uma construção que passa por influências biológicas, sociais, culturais, familiares e que desemboca em nossa percepção sobre tudo.

    Esse processo de construção inclui a constituição de formas de se relacionar consigo e com os outros. E essa forma primeira de se relacionar se inicia, geralmente, na relação com a mãe. É por ela que o bebê se apaixona pela primeira vez. E mesmo que você não se lembre, isso deixou marcas profundas no seu psiquismo. E uma delas foi a constituição desse feminino/anima em você.

    Muitas vezes essa mãe não recebeu, ela mesma, o suficiente para desenvolver plenamente esse feminino em si. Como poderia, ela própria, transmitir esse feminino à filha? E, também por isso, pode se perpetuar o desequilíbrio dessa anima de avó para mãe, e de mãe para filha.

    Você conhece essa imagem?

    yin_yang

    A cultura oriental enxerga nesta imagem o Equilíbrio. Para haver o equilíbrio no preto é preciso haver um pouco de branco. Para haver o equilíbrio no branco é preciso haver um pouco de preto. Esse é o Yin – Yang. Em termos Junguianos: Anima e Animus.

    Segundo Jung, Anima e Animus se complementam e compõem a dimensão psíquica humana. Entender estes arquétipos dentro de sua psique é entender sua individualidade e o contexto cultural e social onde você está inserida. Os conceitos de Anima Animus são essencialmente universais, embora suas formas de manifestação ou de intensificação variem de acordo com a sociedade, o momento histórico, a cultura e até mesmo o ambiente familiar. Em uma cultura patriarcal, por exemplo, as características masculinas são amplamente valorizadas, enquanto as femininas são inferiorizadas.

     

    anima animus

    anima_animus_desequilibrio

    Em nossos dias, conseguimos enxergar claramente um desequilíbrio entre Animus e Anima. Meninos e meninas são criados para desenvolverem seu lado Animus em detrimento de sua Anima, como se um fosse superior ao outro. Como resultado, temos vivido um desequilíbrio tanto no indivíduo quanto no mundo como um todo. Na cultura, principalmente a ocidental, atendemos muito mais as demandas lógicas e práticas do Animus do que as atividades artísticas, intuitivas e de interiorização próprias da Anima. A cooperação entre ambos os arquétipos é fundamental para o equilíbrio psicológico.

    Atendo muitos pacientes com demandas afetivas bastante semelhantes. As questões trazidas para o setting sobre conflitos nos relacionamentos são a regra. E não estou falando só de mulheres, essas demandas independem do gênero. Estão presentes na busca de mulheres, homens, hetero, homo. Essa é uma demanda universal.

    Uma criança que aprende a desvalorizar sua Anima pode crescer uma pessoa mais irritada, crítica, controladora, insatisfeita, fria, rude, bruta, obsessiva. Ela pode desenvolver uma atitude de desdém em relação ao companheiro, diminuindo-os, enfraquecendo-os, o que pode afastar a possibilidade de uma relação saudável e equilibrada. Ela reivindica muito desse parceiro e pede, incessantemente, o que ele não é capaz de dar. Isso vale para meninas e meninos, para relações hetero e homo.

    Só quando essa pessoa já adulta começa a se questionar sobre o porquê de todo esse sofrimento é que ela cria a possibilidade de se abrir e de desenvolver Anima e Animus em complementaridade. Mas enquanto ela se segura em seu masculino capenga, sua feminilidade não flui, seus relacionamentos não são genuínos, sua convivência é conflitiva, ela vive um vazio consigo, um vazio quase dormente.

    E o que tudo isso tem a ver com a Pira Olímpica e com o Espírito Olímpico, você me pergunta de novo.

    E respondo novamente: tudo.

    Ontem, ao assistir aquela imagem incrível da Pira Olímpica sendo acesa pelo meu ídolo Vanderlei Cordeiro, vi o poder de Anima e Animus juntos diante de meus olhos: uma mandala linda, constituída de muitos e muitos círculos, girando infinitamente, hipnotizando-me, trazendo-me conforto, presenteando-me com o sentimento de aconchego e de paz. E, ao mesmo tempo em que todo esse poder feminino enchia meus olhos e minha alma, sentia o poder do fogo, da atitude, da ação, da coragem, da sabedoria.

    É disso que o mundo precisa. É disso que cada indivíduo precisa. E isso está aqui dentro de cada um de nós. Todos somos capazes de equilibrar esse masculino e feminino dentro da gente. Basta estar consciente, basta se olhar com mais amor e se permitir.

    E que os jogos comecem!

    Leia mais