• Workshop Resgate-se – Segunda Edição

    resgatese_folder2016

     

    Inscreva-se clicando aqui.

     

     

    Leia mais
  • Estamos drogando nossas crianças
    Por Alenne Namba

     

    Hoje li uma notícia que me deixou muito esperançosa. Alguns governos espalhados pelo mundo estão incentivando os pais de crianças com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) a tentarem a terapia antes de recorrerem a medicamentos como a Ritalina.

    Tenho levantado essa bandeira há alguns anos, mas infelizmente muitos pais ainda se sentem mais confortáveis com o resultado imediato da medicação. Não se sentem confortáveis em buscarem as causas que levam a criança a apresentar aqueles comportamentos fruto do que, provavelmente, ela vivencia em casa.

    Menos da metade das crianças diagnosticadas com TDAH no mundo fazem algum tipo de terapia. Enquanto isso, a maior parte delas recebe tratamento medicamentoso. O que muitos pais não sabem é que os efeitos a longo prazo destas drogas sobre um cérebro jovem  ainda não foram bem estudados. Além disso, os efeitos colaterais podem ser numerosos, incluindo a falta de apetite, insônia, irritabilidade e retardo no crescimento.

    Enquanto medicamentos como a Ritalina têm efeito quase que instantâneo, a terapia pode levar muitos meses para apresentar resultados visíveis. Entretanto, os benefícios costumam ser mais duradouros justamente porque vão atrás da causa do problema. Só para ilustrar como a situação é mais complexa do que imaginamos, vou relatar aqui um caso do qual tive conhecimento há alguns anos atrás.

    Conheci os pais desse menino de seis anos de idade o qual havia se tornado um problema na escola. Ele estava batendo e chutando professores e coleguinhas. Seus pais foram chamados pela escola e ali foi sugerido que procurassem tratamento terapêutico para a criança. Entretanto, muitos terapeutas que atendem crianças sugerem que os pais também iniciem seus próprios tratamentos. Logo se descobriu que os pais tinham um relacionamento turbulento e muitas vezes explodiam em raiva e violência verbal e física. Sua atitude para com o menino era a de gritar, bater e culpá-lo em diversas situações.

    A terapeuta em questão trabalhou com a família por alguns meses e estava fazendo progressos no sentido de ajudar a família a entender a dinâmica familiar que estava afetando seu filho. Descobriram, por exemplo, que o menino explodia na escola logo após uma briga dos pais dentro de casa. Mas o progresso era lento e gradual e os pais acabaram sendo chamados pelo diretor da escola novamente. Neste segundo momento, o diretor informou que talvez o menino precisasse se consultar com um psiquiatra para ter acesso a alguma medicação. Inicialmente a terapeuta se opôs à ideia, mas concordou depois do apelo dos pais.

    E assim foi feito. A criança foi à consulta com o psiquiatra, ali foi receitada a Ritalina e logo o menino foi se acalmando e diminuindo os episódios problemáticos na escola. Isso agradou a escola e também agradou os pais, mas destruiu qualquer chance de a terapia continuar fazendo qualquer progresso. Depois disso, os pais não viram mais sentido em continuar levando o filho à terapia e optaram por continuar com a medicação.

    A felicidade dos pais era a de o filho estar melhorando suas notas na escola, mas não consideraram os efeitos colaterais a longo prazo da medicação em seu organismo. Estes pais, como muitos pais, estavam mais preocupados em fazer o que era mais conveniente do que o que iria ser o melhor método para seu filho, mesmo que a longo prazo.

    Geralmente crianças que apresentam problemas na escola também estão tendo problemas em casa. Estes problemas precisam ser enxergados e entendidos. Não necessariamente são problemas tão extremos com o exemplo que dei. Conheço o caso de uma pré-adolescente que apresentava déficit de atenção na escola, mas que acabava sofrendo de “déficit de atenção” por parte dos pais. Creio que não estava recebendo atenção suficiente em casa.

    Hoje, os pais não têm tempo para lidarem com os problemas de seus filhos. Estão sempre trabalhando, estão cheios com os próprios problemas, esperam que os filhos sejam ótimos na escola porque precisam passar numa ótima universidade… Não há espaço para problemas, não há tempo para isso nos dias de hoje. Entender o que os filhos estão passando? Entender a origem dos problemas? Reconhecer alguma disfunção familiar? Enxergar que não são tão bons pais assim? A saída mais rápida e fácil é o medicamento, como se fosse um anjo salvador.

    Sempre digo em consultório que a medicação não cura, ela simplesmente mantém anestesiado o problema. E, então, as pessoas se tornam viciadas em remédios desde tenra infância. Já ouvi de paciente que determinado psiquiatra lhe disse que deveria tomar uma certa medicação pelo resto de sua vida.

    Sério isso???

    Nem os pais nem os profissionais estão trazendo para a superfície as reais causas psicológicas do problema. Só fazendo isso, podemos lidar com os comportamentos que a criança apresenta.

    Espero, do fundo do coração, que você seja multiplicador do que apresento neste artigo. Se você conhece alguma família que esteja passando por algo semelhante, ajude, não se cale. A saúde física e mental de uma criança depende também daqueles que estão ao seu redor.

    Leia mais