• 4 lições que aprendi com a corrida
    Por Alenne Namba

     

    Já há algum tempo gostaria de escrever sobre os milagres que a corrida pode nos ensinar. Digo milagres, porque são pequenos sentimentos, pequenas atitudes que esse movimento tão simples acaba por nos mostrar na nossa rotina de corredor.

    Dizem que aqueles que foram picados pelo bichinho da corrida nunca mais deixam de ser corredores. Eu concordo. Corro há 5 anos. Foi aí que o bichinho me picou. Nesse tempo, larguei a corrida por outros 2 anos, mas louca para voltar a calçar os tênis e sentir o vento no rosto novamente. E neste ano finalmente voltei.

    O bom desse intervalo sem correr foi que aprendi a valorizar ainda mais a corrida e por isso decidi compartilhar esse aprendizado com vocês. Mas o meu verdadeiro intuito aqui é que você perceba como essas lições podem ser aplicadas em qualquer área da sua vida, não só na sua saúde física, mas mental, emocional e também espiritual. Vamos lá:

    Lição nº 1
    É difícil começar (e recomeçar)

    Claro que todo início é difícil. Aposto que foi difícil para você nascer (posso apostar que você chorou…). Foi difícil começar a andar, foi difícil aprender a andar de bicicleta, foi difícil sua primeira vez, foi difícil se ambientar no primeiro emprego. A lista é longa. Assim como para quem vai começar (ou recomeçar como foi meu caso) a correr, você vai precisar investir muita vontade, muita energia. E nesse início, certamente você também irá querer desistir. E serão muitas as justificativas “perfeitas” para que você desista.

    Confesso que não amo correr. Verdade, não amo correr. Mas amo as provas de rua. Simplesmente sou louca pela energia da largada e da chegada. E também adoro ver e sentir a diversidade de gente de todo tipo durante o percurso. Jovens, idosos, altos, baixos, magros, altos. O corredor não tem rosto. É um esporte super democrático e adoro ver isso nas provas.

    Então, para ir bem nas provas, eu tenho de treinar. Daí você pode imaginar o quanto é difícil afastar dos meus pensamentos todas as justificativas “perfeitas” que desenvolvi para não correr. Está chovendo, está muito quente, estou com sono, estou com preguiça, estou na TPM, prefiro dar uma saidinha com o marido, quero descansar, estou mal-humorada, quero comemorar, enfim, a lista poderia ser gigantesca.

    Mas para quem está começando (ou recomeçando) a maior justificativa é: ainda estou muito mal, não consigo fazer isso tão bem como os outros, não consigo fazer tão bem como já fiz anteriormente, estou fora de forma. Mas fato é que se você persistir e não der ouvidos às suas justificativas “perfeitas”, você perceberá que dia a dia, passo a passo, ação a ação, hábito a hábito, você estará melhor e continuará ficando melhor. Não tem milagre. Persista e você continuará melhorando, seja na corrida, seja em qualquer coisa que você se propuser a fazer.

    Neste ano fiz minha primeira prova depois de dois anos parada, totalmente sedentária. Fiz uma prova de 5km. Para quem já havia corrido 21km, deveria parecer fácil, não é? Nada disso. Foi muito difícil. Mas eu tinha treinado e sabia que conseguiria. Foi um passo após o outro, dores no decorrer do percurso, uma subida no final que quase me fez desistir. Mas persisti e consegui cruzar a linha de chegada com a devida sensação de dever muito bem cumprido. Se eu tivesse ouvido minhas justificativas “perfeitas” não estaria contando essa história para você. Foi importante decidir correr treino a treino, construir minha base novamente. Só assim pude determinar o sucesso do retorno às provas que tanto amo fazer.

    Lição nº 2
    Você não está sozinho –mas vai correr sozinho

    Ficou confuso? É por aí…

    Sempre que você começa qualquer movimento na vida, é importante estar cercado de pessoas que te compreendam e te apoiem. Isso pode fazer toda a diferença no seu resultado. Tenho muita sorte em poder contar com meu marido, que é um super corredor. Além dele, faço parte de uma assessoria de corrida, onde encontrei não só amigos, mas uma família. Esse grupo me ajuda a me manter firme em meus objetivos de corrida. E é muito bom poder partilhar com eles as vitórias que eles me apresentam também. É uma verdadeira troca, então não me sinto sozinha.

    Mas…

    Quando preciso levantar da cama, calçar o par de tênis e sair para correr, essa decisão eu tomo sozinha. Quando as dores começam a aparecer e o lactato aparece nos braços, como se eles fossem cair, só eu mesma posso decidir continuar passo após passo. Ninguém vai tomar essa decisão por mim.

    Mesmo quando estou correndo com milhares de pessoas, numa prova, eu também posso me sentir sozinha. Mas isso não é ruim. Isso pode ser muito bom. Porque ali eu posso pensar em mim, focar na minha respiração, nos meus passos, na música que estou ouvindo, nos meus problemas e nas soluções que se apresentam naquele percurso. Posso aproveitar esse tempo sozinha para viver essa experiência íntima, afinal não é todo mundo que consegue se sentir bem e satisfeito com a própria presença. Espero que não seja o seu caso…

    Lição nº 3
    Repita, repita, foque, repita

    A repetição é a chave para dominar a maioria das coisas na vida. Isso não vale só para a corrida, mas para tudo. Você sabe disso. Se você quer se tornar bom em algo, invista seu tempo em desenvolver-se nisso.

    Antes de começar a correr eu vivia repetindo: “Correr? Tá louco! Não consigo correr nem daqui até a esquina!” Pois é, dois anos depois dos meus primeiros passos já estava correndo minhas meia-maratonas. Sair de 100m para 21km não foi fácil. O segredo foi a repetição.

    Mas por mais que a repetição tenha sido importante, é difícil manter-se repetindo sem um objetivo em mente. Este vídeo aqui ilustra muito bem o que estou dizendo. Em nossos treinos temos de estabelecer em cada periodização nossa prova em foco. Vou correr 10km em outubro? Vou correr 21km daqui há 6 meses? É preciso definir seu objetivo para manter-se repetindo, mas focado naquilo que deseja realizar.

    Lição nº 4
    Todo mundo tem seus limites

    É claro que o esforço é necessário. Mas é preciso conhecer seus limites para que você não fique de molho, parado, por ter se esforçado além da conta. Todo esforço tem de ser feito pouco a pouco, estrategicamente. Se você puxa demais num curto espaço de tempo, pode saber, poderá lhe custar todo o seu planejamento. E isso se aplica tanto à corrida, quanto a outras áreas de sua vida.

    Conheço um corredor que decidiu fazer várias provas de trilha, de 21km, uma atrás da outra, em fins de semana seguidos. Ele vinha de umas semanas já de cansaço muscular, de lesões, mas não abriu mão das provas que tanto queria fazer. Dito e feito: quebrou e quebrou feio. Passou algumas semanas de molho com overtraining. E isso pode acontecer com qualquer um.

    Muitas vezes esse esforço exagerado, sem se atentar para os próprios limites são uma forma de se autoboicotar. Afinal, se não der certo, não foi responsabilidade sua, foi porque aconteceu isso ou aquilo. Assim como podemos utilizar nossa justificativas “perfeitas” a nosso desfavor, também podemos utilizar nossas autossabotagens “perfeitas” ao nosso desfavor. É preciso se conhecer para seguir adiante.

    É fato que qualquer um pode correr, mas é certo também que não é fácil, pois requer foco, esforço, repetição. Portanto, não importa o quão rápido você quer ir ou o quão longe, se você tiver um objetivo, amigos para te impulsionar e se você respeitar os próprios limites, não tenha dúvida: nada irá te parar. Somente a linha de chegada.

    Leia mais