• As belezas e os desafios da adoção
    Por Alenne Namba

    A adoção pode ser uma das experiências mais gratificantes na vida de uma pessoa. Cuidar de uma criança e ser responsável por seu desenvolvimento é um passo e tanto. Mas a adoção também pode levar algumas famílias a extremos de sentimentos, muitos deles não tão belos assim.

    Não só os pais adotantes precisam se questionar se a adoção é o melhor caminho para eles, quanto também devem se questionar se eles próprios são as pessoas certas para a adoção, pois, muitas vezes, a adoção é encarada como a solução para suas feridas narcísicas, o que, ao longo deste artigo, entenderemos que pode ser muito temeroso.

    Se formos tomar por base a história da infância, nem sempre a criança foi percebida como nos dias atuais. Seu significado não só muda ao longo do tempo, como muda de cultura para cultura.

    Na Idade Média, por exemplo, uma criança nada mais era do que um pequeno adulto, a qual não só poderia como deveria trabalhar, muitas vezes em condições insalubres. Com o surgimento da família moderna, após o séc. XVIII, a criança começou a ser percebida de modo diferenciado. Suas roupas já não eram mais imitações adultas, jogos e passatempos específicos foram criados, assim como um crescente sentimento de inocência da infância.

    As primeiras instituições a abrigar crianças órfãs ou abandonadas datam da época dos romanos. Nesta época, Platão já afirmava:

    “Os órfãos devem ser colocados sob os cuidados de guardiões públicos. Os homens devem temer a solidão dos órfãos e das almas de seus pais falecidos. Um homem deve amar o órfão infeliz de quem ele é guardião como se fosse seu próprio filho. Ele deve ser o mais cuidadoso e tão diligente na gestão de patrimônio do órfão como de sua própria riqueza ou até mesmo mais cuidadoso ainda”.

    Em meados do séc. XVIII, foram criadas as primeiras instituições de caridade para abrigar crianças abandonadas sob a ótica da filantropia. De lá para cá, muitas são as evidências de que tais lugares não são a melhor opção para uma criança se desenvolver saudavelmente. Sabe-se da dificuldade em se conseguir que a criança obtenha algum vínculo mais pessoal, seja físico ou emocional, ou outros tipos de estimulação que sejam adequados e suficientes para seu desenvolvimento social e cognitivo. Por isso, faz-se essencial a ideia de que quanto mais cedo a criança puder ser levada para adoção, melhor poderá ser para seu desenvolvimento.

    Os primeiros a estudarem esse desenvolvimento biopsicossocial de crianças institucionalizadas foram os psicanalistas René Spitz e John Bowlby. Segundo seus estudos feitos com crianças órfãs do pós-guerra, o bebê deve experimentar uma relação calorosa, íntima e contínua com sua mãe (ou mãe adotiva) em que ambos encontrem satisfação e prazer. Caso houvesse uma grave ruptura nessa relação, o que Bowlby chamou de privação materna, as consequências mentais poderiam ser irreversíveis.

    A adoção, portanto, é uma saída para a religação entre essa criança e pais dispostos a oferecer carinho, apoio e cuidado. Mas para que isso ocorra de forma saudável, é preciso que os pais adotantes busquem se adaptar às necessidades desta criança ao longo de seu amadurecimento.

    Entretanto, geralmente não é esse desejo de cuidar a motivação que leva os indivíduos a buscarem a adoção como alternativa. Os motivos mais comuns são: infertilidade, luto pela perda de um filho biológico, a impossibilidade de engravidar, o não desejo de engravidar, pessoas que desejam filhos mas não possuem parceiros, parentesco com a criança filha de pais impossibilitados, entre outros.

    Tais motivos podem ser um obstáculo para o bom relacionamento com essa criança, pois eles expressam pensamentos conscientes e desejos inconscientes por uma criança imaginada que poderia solucionar os anseios e expectativas destes pais. Entretanto, a criança real não corresponde à criança imaginada e frustra a realização desse ideal narcísico dos pais. E isso, é claro, ocorre não só na família com crianças adotadas, como em famílias com filhos biológicos.

    Como a identificação entre familiares é parte da construção psíquica de cada criança, esse liame passa a ser transmitido de geração em geração. Aquilo que não foi devidamente elaborado na relação edípica com os pais acaba por se repetir, suscitando sofrimento entre as gerações.

    Todavia, quando esta criança adotada começa a comportar-se de modo distante do idealizado, apresentando comportamentos naturais e instintivos de qualquer criança como birras, curiosidade sexual, agressividade, dificuldades de aprendizado, logo muitos pais adotivos acreditam não serem responsáveis por isso; ao contrário, creditam tais comportamentos à falta de vínculo genético, às características dos pais biológicos etc. São incapazes de reconhecer que tais ações fazem parte de qualquer criança e que eles também são responsáveis por elas, uma vez que são os cuidadores e gestores deste desenvolvimento infantil.

    Pais que se dispõem a adotar um filho precisam criar um ambiente saudável e que propicie confiança àquela criança que já viveu traumas anteriores, ela precisa de cuidados especiais, maiores até que um filho biológico, como disse Platão anteriormente. Por isso, é importante que, antes mesmo da adoção se tornar algo concreto, os pais se disponham a encarar um tratamento terapêutico para conseguirem auxílio na elaboração de suas demandas, seus medos, expectativas e angústias. Além disso, serão orientados sobre todo o processo de adoção e os passos fundamentais a tomarem nessa longa jornada. Tal precaução pode diminuir as chances de problemas maiores na relação entre esses pais e o filho adotivo, já que aqueles poderão compreender que esta criança não é a mensageira da entrega de seu Ideal do Ego, pois ela própria poderá aceitar ou não esse desejo passado de pai para filho, de avós para pais, de geração em geração.

    Sabe-se que esse relacionamento mais primitivo entre pais e filhos biológicos não é possível ocorrer em famílias adotantes, entretanto os laços de sangue não garantem tal vínculo. É possível tanto em famílias adotantes quanto em famílias biológicas um não vínculo afetivo, veja-se o próprio fato de mães entregarem seus filhos para adoção. Todavia, não só é possível quanto necessário numa família adotante que se estabeleça um relacionamento íntimo e estável entre si, para que a criança se sinta acolhida, segura e pertencente àquela família. Esta confiança no seio familiar possibilitará uma confiança no mundo (tal confiança já fora abalada pelo abandono da mãe biológica).

    Por isso é importante que estes pais estejam preparados psicologicamente para a adoção, afim de suportarem pelo tempo necessário o amor e o ódio vindo desta nova criança e seus comportamentos destrutivos que muitas vezes são sinônimos de pedidos de ajuda (como pequenos furtos, desobediência, agressividade). Neste momento, muitos pais não se enxergam responsáveis pelos sintomas dos filhos adotados, e podem até se arrepender da adoção, como se a criança pudesse ser encarada como algo que se devolve à prateleira. A adoção é tarefa árdua e constante por um longo tempo, assim como qualquer maternidade biológica. Portanto, uma mãe que espera no filho adotado uma solução para sua solidão, provavelmente se deparará com diversas dificuldades. Não é o filho que se apresentará como solução para seus problemas, mas ela própria que poderá ser solução para o desenvolvimento cognitivo e social desta criança. Para isso, esta mãe precisará estar em boas condições mentais e com suas questões já mais elaboradas com o auxílio de terapia.

    Tanto pais quanto filhos adotados precisam de um tempo para se sentirem ambientados, acomodados, para sentirem que pertencem a uma família. Esta é uma experiência que todos precisarão passar e esta criança levará em conta essa experiência ao se tornar adulta e ao se relacionar afetivamente com seus parceiros, bem como quando decidir-se por casar e ter filhos. A identificação com estes novos pais, esta nova família, poderá ser o modelo para suas relações futuras.

    Por isso mesmo, reafirmamos a necessidade de pais terapeutizados, pois os cuidados com filhos adotivos ultrapassam os cuidados comuns. Afinal, esta criança passou por traumas, por perdas, que precisarão ser ressarcidas e os novos pais terão de manejar tudo isso. Tal gestão é necessária para que a criança se veja na esperança de ressignificações e para que se sinta capaz de confiar novamente no ambiente, para que se recorde do que lhe foi tirado, mas na esperança de reencontrar o que é bom.

    Um dos cuidados mais essenciais nessa gestão do desenvolvimento psíquico dessa criança é a alimentação. Quando se trata de lactentes, a mãe adotante precisa preocupar-se exclusivamente com este bebê e procurar manejar essa relação para que haja vínculo e identificação.

    Deste modo, o ato de amamentar, mesmo que por meio de uma mamadeira, propiciará esse encontro entre mãe e filho, a fim de ensiná-lo que o alimento sempre chegará adequada e suficientemente a tempo. Essa ação da mãe adotante é uma boa referência quanto a uma adoção bem sucedida.

    Assim como a amamentação, o desmame também é crucial para o amadurecimento cognitivo do bebê. É preciso que os pais entreguem a ele um ambiente estável para essa experiência, do contrário essa pode ser a origem de distúrbios alimentares no futuro.

    Um desmame bem conduzido propicia ao bebê aprender a se libertar das coisas. A perda do seio materno, mesmo que simbólico, não deverá ser para este bebê um fator catastrófico, um vazio. Um desmame mal conduzido pode ser encarado como a perda do cuidado materno numa época em que esta criança ainda encontra-se indefesa. O inconsciente vê o desmame como o próprio abandono, a própria morte.

    Outra questão bastante relevante no que se refere à confiança desta criança em relação aos pais é o cuidado na hora de contar sobre a origem genética deste filho. Essa preocupação é um dos pontos centrais em qualquer família adotante. Há sempre uma ambiguidade em conflito. Se por um lado os pais desejam contar a verdade, por outro não gostariam de conhecer sobre os genitores, não sabem o momento propício de contar e receiam que o filho não os encare mais como os cuidadores oficiais.

    Por volta dos 3 ou 4 anos de idade, a criança inicia suas curiosidades sobre sua origem, de onde ela vem, como nasceu. Este é um bom momento para iniciar o assunto com uma criança adotada, sempre de forma natural para que ela comece a toma consciência de sua situação. A conversa não precisa ser um momento único tampouco solene, ao contrário, de preferência que o assunto seja abordado espontaneamente de modo à criança ir se familiarizando com o tema.

    Fato é que aqueles pais que mantém sigilo sobre a adoção impossibilitam a criança de conhecer a realidade, resultando numa consequente mistura entre fantasia e fato, impedindo que esta criança possa diferenciar essas duas coisas. Esta atitude pode acabar gerando uma nova desconfiança no ambiente, uma nova situação de insegurança. Conhecer sua origem, conhecer a verdade é um dos caminhos para que a criança aprenda a deixar para trás o que faz parte do passado, assim como ocorre no desmame.

    A fim de minimizar as dificuldades que os pais possam encontrar durante o processo de adoção, faz-se necessário um diagnóstico sobre o passado desta criança e o nível de privação materna que ela enfrentou. Compreender os traumas deste pequeno indivíduo antes de se prosseguir com a adoção pode ser decisivo no sucesso dessa construção familiar.

    Como nos explica Margareth Mahler, o amadurecimento psicológico da criança ocorre por diversas fases. Na primeira delas, a fase autista, o bebê apresenta absoluta falta de consciência da mãe e precisa de pouca estimulação. Caso haja falha nesta proteção, pode-se desenvolver grave autismo. Na segunda fase, a simbiótica, os organizadores são o sorriso e o a identificação da face humana. Começa-se a distinguir a relação mãe-bebê, mas ainda não há consciência da dependência, pois ainda são considerados como uma coisa só. Os distúrbios decorrentes de falhas nesta fase são a esquizofrenia e o autismo.

    Na terceira fase, a separação e individuação, a criança começa a perceber que é separado do outro, da mãe. Inicialmente ela vai ganhando confiança nesta mãe, de que estará ali sempre que precisar, que não passará por drásticas faltas nem inseguranças. A mãe ainda é um objeto interno, mas logo em seguida passa para o momento da separação.

    Neste momento seguinte, a criança já sai do colo da mãe, passa para o chão, ou seja, para o mundo. A confiança na mãe vai dizer se a criança poderá se afastar com a segurança de que a mãe estará ainda em seu campo de visão. A criança vai tomando consciência de que pode se separar da mãe, mas que voltará para ela, que a mãe estará ali. A partir daí a mãe pode se ausentar deste campo de visão cada vez por mais tempo e a criança vai aprendendo a suportar essa falta. É quando há a unificação entre o objeto bom e mau. Dificuldades nesta fase podem culminar em distúrbios melancólicos e narcisistas relacionados à onipotência, pois o ego é chamado a estar onde a mãe não está.

    Sendo assim, compreender a fase em que a criança se encontra ao adotá-la é fundamental para a gestão de seu amadurecimento psíquico. Para isso, é importante que os pais adotantes possam recorrer a um acompanhamento profissional especializado desde o início de todo o processo. O abandono ou a perda dos pais para a criança a coloca numa situação traumática e a adoção é um dos recursos para garantir não só o equilíbrio emocional deste pequeno indivíduo como sua segurança básica.

    Mas mais importante do que qualquer coisa é relembrar a frase de Platão quando ele diz que aquele que se decide por cuidar de uma criança adotiva deve ser o mais cuidadoso possível, deve querer dar a esta criança mais do que um filho biológico necessitaria, para que esta criança consiga receber esse amor e reproduzi-lo ao longo de sua vida, num gesto de ressignificação da perda que sofreu.

    E caso você se encontre nesta situação, entre em contato e agende uma entrevista inicial gratuita para conversarmos sobre suas demandas.

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